domingo, 21 de setembro de 2014

A Pedra da Paciência

“A Pedra da Paciência”, segunda adaptação cinematográfica feita pelo afegão Atiq Rahimi de um de seus próprios livros (a primeira foi “Terra e Cinzas”, em 2004), é um filme sobre uma mulher (a fantástica iraniana Golshifteh Farahani, de “Frango Com Ameixas”) que conversa com seu marido em coma durante o caos da guerra civil que acontece em seu país. Ele, que dos 10 anos de casamento passou pouquíssimo tempo com a família por fazer parte da guerrilha e nunca foi um marido atencioso quando em casa, não teve opção a não ser “ouvir” todas as confissões, revelações e desabafos que estavam engasgados na garganta de sua esposa há tempos. O homem passa a ser a sua “pedra da paciência” do título, uma pedra ouvinte de uma lenda contada pela tia da protagonista em dado momento da fita.


Em meio à guerra e à miséria, o desespero da mulher se agrava com a solidão de ter que lidar com o marido em coma, abandonado pela família e pelos companheiros do Jihad, que fogem devido aos ataques naquela área em que vivem, quase beirando a loucura. Até sua tia, seu vínculo familiar restante, desaparece sem deixar aviso. É quando ocorre a invasão de seu bairro que ela decide pegar as duas filhas e procurá-la para pedir ajuda. São rápidas as cenas entre tia e sobrinha, mas de uma enorme profundidade. A tia, que é prostituta, tem muito a ensinar à sobrinha e é dona de ótimas frases da película. A tia lhe conta fatos até então por ela desconhecidos e lhe dá conselhos, além de cuidar de suas filhas enquanto ela cuida do marido e o mantém escondido em sua casa completamente vulnerável, estando suscetível a todos os perigos que representa a uma mulher estar sozinha durante uma guerra do Oriente Médio.


“Syngué sabour, pierre de patience” é um longa de poucos personagens e nomes não são proferidos em momento nenhum da trama, pois, num lugar onde a guerra e a miséria imperam, a identidade de seus moradores se perde. Ao longo da trama, a cultura do machismo arraigado vai sendo escancarada ao público através das palavras das principais figuras femininas. O que parece ser chover no molhado e exposição sem necessidade – cuidar de um marido que já está praticamente morto – revela-se um modo de fazer com que a mulher se sinta mais leve, dando espaço a uma repentina e interessante relação com um dos soldados que invade a sua casa. À medida que tal relação vai se desenvolvendo, uma mulher mais corajosa e segura de si vai dando lugar à mulher frágil e insegura do início, e revelações cada vez mais profundas e inesperadas vão sendo feitas ao marido e ao espectador.


Vencedor de três prêmios (na França, Turquia e China), “A Pedra da Paciência” é um filme forte que envolve o público começo ao fim ao despir uma alma feminina reprimida pela religião e pela cultura do Oriente Médio, que ganha força na belíssima interpretação de Golshifteh Farahani. A competente direção de Rahimi, aliada à sua sensibilidade de autor da história, fazem de seu mais recente longa-metragem uma obra marcante, difícil de ficar indiferente.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Pedra da Paciência (Syngué sabour, pierre de patience)

Afeganistão - 2012. 98 minutos.

Direção: Atiq Rahimi

Com: Golshifteh Farahani, Hamid Djavadan, Hassina Burgan e Massi Mrowat.


Nota: 4

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Doador de Memórias

Obras literárias distópicas estão no auge do sucesso entre os adolescentes e os chamados young adults, e suas adaptações para o cinema não ficam atrás. Filmes destinados aos fãs do gênero lotam cada vez mais as grandes salas. Seus atuais e maiores representantes, “Jogos Vorazes” e “Divergente”, que o digam. O que pouca gente sabe é que “O Doador de Memórias”, best-seller da autora Lois Lowry ganhador do Newbery Medals de 1994 e primeiro de uma série de quatro livros, foi uma das pioneiras distopias adolescentes, em 1993, a surgirem muito antes da moda. Pelo fato de ter permanecido pouco conhecido até então, sua adaptação em longa-metragem, com Vadim Perelman no roteiro (roteirista e diretor de "Casa de Areia e Névoa") e Phillip Noyce como diretor (“O Colecionador de Ossos” e “Salt”), pode soar como mais do mesmo ao público já acostumado com produções de mesma natureza, quando, na verdade, deveria ser o oposto.


O cenário futurista de “The Giver” (no original) que inicialmente parece utópico, onde todos os felizes moradores vivem em plena harmonia na comunidade ideal, logo dá lugar a um panorama distópico em que os habitantes são marionetes “robotizadas” e oprimidas por seus governantes, que apagaram suas memórias e as deixaram a cargo de apenas uma pessoa – o Receptor. Jonas (Brenton Twaites) é o escolhido da vez e precisa passar por um penoso treinamento com o Doador (Jeff Bridges) antes de ocupar definitivamente o cargo. O que Jonas não esperava é que entender o passado e passar a ter emoções antes desconhecidas fosse lhe trazer tanto sofrimento, não só por não poder compartilhar com mais ninguém seus aprendizados, como também por serem tão pesados. Numa escolha bastante acertada, o espectador enxerga com os olhos do protagonista durante boa parte da película, podendo observar e sentir a transição do preto e branco para o mundo real feito de cores, do cruzamento da fronteira da ignorância para a clara e completa consciência.


Enquanto o longa possui uma premissa relevante e repleta de camadas políticas, o desenvolvimento de sua trama não alcança o mesmo feito. O enredo carece de aprofundamento e a resolução se dá de maneira muito rápida – problemas que poderiam ser resolvidos com mais alguns minutos de fita. O desfecho, apesar de clichê e um pouco piegas, transmite uma mensagem positiva de esperança e de luta por ideias, do jeito que o público gosta. Qualquer semelhança com “Jogos Vorazes”, “Divergente”, “Harry Potter”, e até “A Viagem” e “Mulheres Perfeitas” não é mera coincidência. Com destaque para a atuação dos veteranos Meryl Streep e Jeff Bridges, que acabam ofuscando o casal novato Brenton Twaites e Odeya Rush, além da cantora Taylor Swift numa participação descartável, “O Doador de Memórias” é um filme envolvente que chama atenção por sua proposta, mas que ainda assim tem suas falhas e poderia ser muito mais.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Doador de Memórias (The Giver)

EUA - 2014. 97 minutos.

Direção: Phillip Noyce

Com: Brenton Twaites, Jeff Bridges, Meryl Streep, Alexander Skarsgård, Katie Holmes, Odeya Rush e Cameron Monaghan.


Nota: 3

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Se Eu Ficar

Chloë Grace Moretz, uma das atuais queridinhas teen de Hollywood, após estrelar o remake do clássico do terror “Carrie - A Estranha”, é a protagonista do drama “Se Eu Ficar”, baseado no best-seller homônimo de Gayle Forman. No longa, dirigido por R.J. Cutler (da série "Nashville"), Chloë é Mia, uma menina de 17 anos em coma que precisa decidir se quer ou não acordar depois de sofrer um grave acidente com os pais e o irmão. 



If I Stay” (no original) é aquela típica história americana sobre o primeiro amor adolescente no estilo ‘os opostos se atraem’ que enfrenta constantes problemas para se manter, e também envolve os temas já batidos música e família em seu enredo. Mia e Adam (Jamie Blackley) são músicos – ela toca violoncelo e ele é guitarrista de uma banda de rock em início de carreira. Ela é tímida e deslocada, ele é popular e extrovertido. Ela tem uma família unida e descolada, ele não tem mais família. Tudo parece se encaixar perfeitamente até que os desentendimentos começam a surgir para atrapalhar a relação. Mesmo depois da quase-morte de Mia, o amor entre Adam e ela permanece forte, e é o maior incentivo para que ela continue viva, embora a dúvida persista durante quase toda a trama. Mia coloca na balança a perda da família de um lado e o amor que sente por Adam e pela música do outro. Dada a previsibilidade do roteiro de Shauna Cross (“Garota Fantástica” e “O Que Esperar Quando Você Está Esperando”), não é necessário pensar muito para se descobrir qual deles terá o maior peso na decisão final da apaixonada violoncelista. A motivação da protagonista para acordar do coma em “Se Eu Ficar” é semelhante à da comédia romântica “E Se Fosse Verdade”, de Mark Waters, em que a alma da personagem de Reese Whiterspoon em coma se apaixona pelo personagem de Mark Ruffalo, que é quem, de fato, impede que ela morra por amá-la. Porém fica só aí a semelhança.


Como casal, Mia e Adam não são nem de longe tão cativantes quanto Hazel (Shailene Woodley) e Gus (Ansel Elgort) o são em “A Culpa é das Estrelas”, outro filme deste ano que gira em torno de um amor adolescente que passa por adversidades relacionadas à saúde. Apesar disso, Chloë e Jamie convencem em seus respectivos papéis e utilizam alguns clichês para fazer o público rir e chorar. Quem rouba a cena são os pais de mia, Denny (Joshua Leonard) e Kat (Mireille Enos), que deixaram a vida de roqueiros inconsequentes para cuidar dos filhos, mas nunca permitiram que o rock deixasse suas vidas. São deles as melhores tiradas de humor e instantes de reflexão do filme. Os flashbacks são o ponto alto da película, já que neles residem a trajetória do romance e os divertidos e emocionantes momentos em família, enquanto o presente, que se passa quase que inteiramente no hospital pós-acidente, é bastante melodramático. O excesso de clichês, misturado àquela sensação de já termos visto boa parte daquelas cenas em outras produções, faz o longa cair na armadilha da trivialidade. Ainda assim, “Se Eu Ficar” possui seus atrativos, especialmente ao público ao qual se destina.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Se Eu Ficar (If I Stay)

EUA - 2014. 106 minutos.

Direção: R.J. Cutler

Com: Chloë Grace Moretz, Jamie Blackley, Mireille Enos, Joshua Leonard, Liana Liberato, Aliyah O'Brien e Jakob Davies.

Nota: 3

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobrevivi ao Holocausto

O Holocausto é um assunto bastante recorrente tanto na literatura quanto no cinema. Por se tratar de uma das maiores tragédias da humanidade, com consequências visíveis e também veladas até hoje, as histórias relacionadas ao Holocausto continuam a se destacar e a emocionar um grande número de pessoas. Cinematograficamente, o tema sobressai-se mais na forma de documentário devido à maior veracidade que carrega, apesar de não ser a mais popular entre o grande público, que digere melhor a ficção. Aproveitando-se do fato de que o Brasil foi um país acolhedor de muitos imigrantes judeus na época que fizeram daqui seu lar permanente, Marcio Pitliuk, escritor (autor de “O homem que venceu Hitler”), cineasta, estudioso e divulgador do Holocausto, escreveu o roteiro do documentário “Sobrevivi ao Holocausto”, dividindo a direção com Caio Cobra (“Crônicas de um Assassino”).


Após os longas “Marcha da Vida” (2011), “100 anos de imigração judaica do leste europeu” (2011) e ”200 anos de imigração judaica do Mediterrâneo” (2013), Pitliuk lançou este ano no 18º Festival de Cinema Judaico de São Paulo seu filme que conta como Julio Gartner, um judeu polonês, conseguiu sobreviver ao pesadelo do Holocausto entre 1939 e 1945. Acompanhado por Marina Kagan, amiga de sua neta que possui a mesma idade que ele quando foi preso num campo de concentração, Gartner viaja para todos os lugares que fizeram parte de seu doloroso passado até conseguir chegar ao Brasil.


Entre historiadores, professores, pesquisadores, curadores de museus e rabinos, cada um dá uma contribuição para enriquecer a história contada por Gatner ao longo do filme. Uma pequena aula de história, principalmente para as novas gerações, que estão tão distantes do tema. Marina, apesar de ser somente uma figurante na trama, é judia e dialoga com esta parcela mais jovem que, assim como ela, não conhecia boa parte da história de seus antecedentes.


Provavelmente para deixar o espectador mais chocado e emocionado com algumas cenas fortes, a trilha sonora de Paulo Garfunkel alterna entre silêncio e sons pontuais com tom ora de suspense, ora de melancolia. Talvez resida aí o maior erro do documentário, já que não era necessário aumentar ainda mais a carga dramática de um assunto tão pesado. Entretanto, “Sobrevivi ao Holocausto” não perde em momento nenhum o seu mérito, pois a história de alguém que sobreviveu em meio ao assassinato de seis milhões de judeus merece ser contada. Julio Gartner, além de compartilhar com o público seus relatos, também transmite o que aprendeu com o seu passado traumático e a como conviver com ele. Não saia nos créditos, pois são um complemento ao filme.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Sobrevivi ao Holocausto

Brasil - 2014. 90 minutos.

Direção: Caio Cobra e Marcio Pitliuk

Com: Julio Gartner e Marina Kagan.


Nota: 4

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