sábado, 26 de julho de 2014

Bistrô Romantique

“Bistrô Romantique”, primeiro longa-metragem do diretor de séries Joël Vanhoebrouck, é uma comédia romântica com uma dose de drama e que, ao contrário do que sugere o título, não é francês, e sim, belga, como Vanhoebrouck. O filme se passa no restaurante de Pascaline (Sara de Roo) herdado de seu pai, onde trabalha com o irmão e chef Angelo (Axel Daeseleire). Aproveitando-se do Dia dos Namorados, os irmãos resolvem fazer uma noite especial só para casais com um menu romântico afrodisíaco exclusivo. O que Pascaline não imaginava é que um antigo namorado apareceria mais de 20 anos depois, justamente nesta noite, com uma inusitada proposta, que faz com que problemas familiares venham à tona. Paralelamente ao drama pessoal da proprietária, clientes que ocupam o salão do Bistrô Romantique vivem suas histórias de amor (e desamor), não menos importantes que a de Pascaline, em cinco capítulos nomeados conforme os pratos do menu.


Na data comemorativa, cada cliente se encontra numa situação romântica distinta, em um estágio de relacionamento, e vemos a evolução de todos ao longo dos atos. Walter (Mathijs F. Scheepers) é um esquizofrênico solitário à procura de um amor que espera uma mulher que conheceu pela internet para jantar. Paul (Filip Peeters, de “Irmã Sorriso”) e Roos (Barbara Sarafian, de “Bullhead”, candidato da Bélgica ao Oscar 2012 de Melhor Filme Estrangeiro) são um casal cuja chama da paixão já se apagou totalmente ao longo dos mais de 10 anos de casamento. Mia (Ruth Becquart) é uma mulher de meia idade que não consegue se recuperar do fim de seu casamento mesmo após alguns anos e é consolada pelo garçom Lesley (Wouter Hendrickx). Há também outros casais coadjuvantes, que não possuem suas historias desenvolvidas e servem apenas como uma pitada de humor a mais em certos momentos.


Apesar dos clichês do gênero e do final previsível, o filme de estreia de Vanhoebrouck, que se assemelha a “O Jantar” de Ettore Scola, possui personagens peculiares próximos do real, boas atuações e uma perfeita atmosfera romântica em seu único cenário. Assim como em "Os Sabores do Palácio", "Ratatouille" e no brasileiro "Estômago", o espectador é fisgado pela barriga e por outros sentidos em cenas com belos pratos de dar água na boca, porém conquistado pelo bom desenvolvimento do roteiro, a cargo de Jean-Claude Van Rijckeghem e Pat van Beirs em “Bistrô Romantique”. Poderia ser melhor, mas não deixa de ser um entretenimento agradável. Prepare-se: você vai sair com fome do cinema.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Bistrô Romantique (Brasserie Romantiek)

Bélgica - 2012. 102 minutos.

Direção: Joël Vanhoebrouck

Com: Sara de Roo, Koen De Bouw, Filip Peeters, Barbara Sarafian e Axel Daeseleire.


Nota: 3

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Mesmo Se Nada Der Certo

Ex-baixista da banda irlandesa The Frames, John Carney tornou-se cineasta sem abandonar sua veia musical. Em 2007, lançou o longa-metragem de baixíssimo orçamento “Apenas Uma Vez” (Once), com seu roteiro e direção, tendo sido vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Falling Slowly"), do Independent Spirit Awards de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio do Público no Sundance Film Festival em 2008, e indicado a tantos outros. Com um roteiro criado a partir de canções românticas compostas por Glen Hansard, vocalista da banda The Frames e protagonista do filme em questão, e a inclusão da musicista tcheca Markéta Irglová como seu par, Carney conseguiu emocionar um grande público com sua história musical sobre dificuldades, oportunidades, relacionamentos e recomeços. Em 2014, ele retoma os mesmos temas com uma trama de estrutura similar que sua obra anterior, porém mais agitada por se passar na cidade de Nova York e com estrelas hollywoodianas e da cena musical no elenco.


Em “Mesmo Se Nada Der Certo”, Keira Knightley é Gretta, uma cantora britânica que vai acompanhar o namorado (vivido pelo vocalista da banda Maroon 5, Adam Levine) em uma turnê na cidade que nunca dorme e logo é abandonada por ele. Enquanto está num bar com um amigo (James Corden, do inédito “Apenas Uma Chance”), ela é descoberta por Dan (Mark Ruffalo), um produtor musical no fundo do poço, e suas vidas mudam completamente com a nova parceria formada entre ambos. Desta vez, Carney mostra os obstáculos que novos artistas precisam enfrentar para fazer parte da grande indústria musical e como é possível driblá-la com criatividade e ajuda dos novos meios. Assim como em “Apenas Uma Vez”, as inspirações das personagens para compor vêm sempre de relacionamentos anteriores fracassados e mal acabados. Se em “Once” (no original), a trilha sonora era inteira composta por baladas românticas, aqui ela é constituída por deliciosas músicas ao melhor estilo da banda sueca The Cardigans.


Ao mostrar Dan imaginando gradualmente uma produção elaborada ao escutar Gretta cantando em modo acústico, Carney quis exprimir como funcionam as mentes criativas dos artistas, inclusive de cineastas ao lerem um roteiro e o imaginarem como produto final, fazendo talvez um paralelo a si próprio, que possui uma dualidade musical e cinematográfica. A música também entra em “Begin Again” (no original) como um fator que aproxima pessoas, principalmente através das personagens Violet (Hailee Steinfeld, de “Bravura Indômita”) e Miriam (Catherine Keener, de "O Quarteto" e "Capitão Phillips"), respectivamente filha e ex-mulher de Dan, de quem se afastaram bastante após o divórcio. Aliás, é a música que dá ferramentas para Dan e Gretta para melhorarem suas vidas e criarem uma forte cumplicidade. O título original, apesar de simples, não poderia ser mais adequado.


Com muita delicadeza e sutileza, Carney une o cinema e a música – duas linguagens universais – em mais uma bela produção que prova que as melhores relações não precisam necessariamente ser românticas, mas que a amizade, a parceria e a confiança são a chave para um relacionamento harmônico. Embora haja uma possibilidade de romance no ar durante toda a película com uma atração implícita e reprimida (assim como em seu longa anterior), sua concretização não se mostra necessária para o desenvolvimento da trama e termina por ser a melhor escolha dos roteiristas John Carney e Anthony Bregman. Como dito por Dan em dado momento do filme, “a música transforma banalidades em pérolas”, e “Mesmo Se Nada Der Certo” é a pequena nova pérola de Carney.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again)

EUA - 2014. 104 minutos.

Direção: John Carney

Com: Keira Knightley, Mark Ruffalo, Hailee Steinfeld, James Corden, Adam Levine, CeeLo Green e Catherine Keener.


Nota: 4

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O Melhor Lance

Ambientado no mundo dos leilões de arte, o novo longa do mestre Giuseppe Tornatore, responsável pela obra-prima “Cinema Paradiso”, “O Melhor Lance” é diferente de tudo o que o cineasta apresentou até hoje, a começar pelo fato de ser o seu primeiro filme rodado totalmente em inglês. Com um elenco pequeno, porém competente e sem a presença de sequer um ator americano, somos apresentados a uma narrativa de estética e ritmo singulares repleta de mistérios. Geoffrey Rush (“A Menina Que Roubava Livros” e “O Discurso do Rei”) é Virgil Oldman – e este nome não é à toa, como nada neste filme, aliás, o é –, um conhecido e respeitado leiloeiro e grande especialista de arte e antiguidades, além de peculiar colecionador. Após ser contratado por Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks, de “Tirza” e “A Gangue de Oss”), uma jovem herdeira reclusa com quem nunca consegue se encontrar pessoalmente, Oldman se vê estranhamente envolvido com a moça, recorrendo aos conselhos de Robert (Jim Sturgess, de “Across the Universe” e “Um Dia”), que o ajuda na restauração e montagem de peças antigas, para conquistar sua confiança.


Logo no início da fita, somos apresentados a um Virgil metódico, fóbico, frio e solitário, vivendo em uma enorme casa que mais parece um hotel, com uma espécie de cofre-sala oculto espetacular, cujas paredes são tomadas por quadros de retratos femininos que ele não se cansa de contemplar. Virgil considera a mulher uma obra de arte incompreensível, um enigma indecifrável que o fascina, mas que também o intimida. Claire se encaixa perfeitamente neste perfil, já que estabelece um jogo bipolar de gato e rato com Virgil conversando com ele somente por telefone e através das paredes da mansão onde vive, atiçando cada vez mais a sua curiosidade e fazendo-o sair gradativamente de dentro de sua casca de homem sisudo e cauteloso. A vulnerabilidade de Virgil se torna cada vez mais evidente, da mesma maneira que o fato de seu comportamento e o de Claire serem reflexos um do outro sem que ele perceba. O leiloeiro não poderia estar mais certo: há sempre algo de autêntico em toda falsificação.


Junto com Virgil, nos indagamos sobre a possível agorafobia de Claire, como ela conseguiu passar tanto tempo morando sozinha, se excluindo do mundo naquela mansão e o que ela tanto esconde. Assim como as engrenagens que ele encontra pela mansão, que Robert descobriu serem de um famoso androide do século XVIII, o quebra-cabeça da trama vai aos poucos se encaixando e tomando forma, mas é apenas no final que as pistas dadas pelas personagens ao longo da película passam a fazer sentido para o espectador. Donald Sutherland (“Jogos Vorazes”), cujo papel parece ser de um simples figurante, dá outra dimensão à história, assim como a anã superdotada do café, interpretada por Kiruna Stamell (“Moulin Rouge: Amor em Vermelho”). Jim Sturgess, no papel mais distinto de toda a sua carreira, dessa vez não é um romântico apaixonado, e sim, um nerd mulherengo e conselheiro amoroso, e também surpreende positivamente.


A direção detalhista e elegante de Tornatore, em conjunto com as ótimas atuações – principalmente do gigante Geoffrey Rush, que dá um verdadeiro show e rouba a cena na pele de Virgil Oldman –, os enquadramentos com o jogo de luzes que contribuem para o constante tom de mistério e a mise-en-scène impecável, fazem de “The Best Offer” (no original) um filme interessante, apesar de algumas lacunas deixadas pelo roteiro para serem preenchidas pela imaginação do público. Muito diferente de “Em Transe”, de Danny Boyle, de mesma temática de base (os leilões), que possui muita velocidade, ação, cores fortes e trabalha com variações temporais, “O Melhor Lance” não tem pressa para revelar os seus segredos, utiliza cores mais sóbrias e luxuosas e deseja envolver o espectador do mesmo modo que Virgil se viu envolvido com Claire. Tornatore trabalha sempre com o presente, nunca com o passado ou o futuro, e apresenta um desfecho que pode parecer previsível para alguns, mas que não deixa de ter o seu charme e o toque lírico habitual do diretor.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Melhor Lance (The Best Offer)

Itália - 2014. 131 minutos.

Direção: Giuseppe Tornatore

Com: Geoffrey Rush, Jim Sturgess, Sylvia Hoeks e Donald Sutherland.


Nota: 4

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Céu é de Verdade

Em 2010, foi lançado o documentário “O Menino Que Voltou do Céu”, baseado no livro homônimo publicado em 2004, contando a história de Alex, um menino de seis anos que sofreu um grave acidente com o pai, passou dois meses em coma com poucas perspectivas de sobrevivência e contou ter tido uma experiência no céu, envolvendo anjos e Jesus Cristo, quando acordou. Quatro anos depois, é a vez do drama “O Céu é de Verdade” chegar aos cinemas. Dirigido por Randall Wallace (“O Homem da Máscara de Ferro”, “Fomos Heróis” e “Secretariat - Uma História Impossível”), o filme apresenta a história de Colton Burpo (Connor Corum), um menino de quatro anos que visitou o céu enquanto passava por uma delicada cirurgia, deixando todos à sua volta desconfortáveis com os relatos de sua inusitada experiência. Embora incrédula no primeiro momento, a família de Colton se viu obrigada a acreditar nele quando este citou pessoas que não conheceu.


Apesar de insistir que não morreu, o que Colton teve foi uma experiência de quase morte, que para alguns não passa de alucinação, enquanto para outros é algo real e espiritual. Há uma discussão sobre isto no longa de Wallace através da figura de uma psiquiatra ateia procurada por Todd Burpo quando ainda não estava certo sobre acreditar ou não nas histórias contadas por seu filho. Responsável por escrever o best-seller homônimo à película, Todd, vivido por Greg Kinnear (“Pequena Miss Sunshine” e “Nação Fast Food - Uma Rede de Corrupção”), esteve inclinado a acreditar em Colton a todo momento, provavelmente por ser reverendo da igreja de sua pequena cidade do Nebraska e por se tratar de uma criança inocente de apenas quatro anos, ao contrário de sua esposa Sonja, representada por Kelly Reilly (“Sherlock Holmes” e “O Enigma Chinês”), que preferia considerar tudo imaginação de seu filho com receio de acreditar que fosse verdade, assim como os outros membros da igreja. O menino afirmou ter saído de seu corpo, assistido à sua própria cirurgia, visto seu pai rezando na capela do hospital e sua mãe telefonando na sala de espera, porém só foi levado a sério quando falou do encontro que teve com seu bisavô e sua irmã, que foi abortada nos primeiros meses de gestação e quase ninguém sabia.


Se por um lado o longa levanta o questionamento da fé, tanto por cristãos quanto por não-religiosos, e aponta para o fato de que a dúvida é causadora do medo, por outro mostra-se mais voltado para pessoas religiosas e tenta fazer com que os que não creem na religião cristã passem acreditar em sua doutrina de qualquer maneira. Outro ponto é que a descrição do céu feita por Colton é a versão ideal, e de certa forma fantasiosa, que ouvimos desde que nascemos: tudo lindo, claro, calmo, onde todos são jovens, com anjos cantando e uma imagem americana de um Jesus Cristo alto, branco de olhos claros, barba e cabelos compridos, contrariando a polêmica (e provavelmente verdadeira) teoria de que Jesus, na verdade, era negro. Em “Malcolm X” (1992), filme de Spike Lee, há uma interessante cena em que o protagonista, interpretado por Denzel Washington, questiona e explica ao pastor da prisão tal teoria de como Jesus não poderia ser branco, e sim, negro.


Com um roteiro cujo ritmo demora a engrenar e mais tarde começa a se arrastar, “O Céu é de Verdade” é um drama que vai agradar em maior parte o público cristão, que possui a crença da existência do céu e do poder da reza. Entretanto, por se tratar de uma história real envolvendo uma criança e possuir uma boa dose de emoção, também pode sensibilizar quem não possui a mesma fé. Por fim, “Heaven Is For Real” (no original) é uma tentativa de trazer a religião protestante para o cinema, apoiada em boas atuações, principalmente de Kinnear e Reilly, mas que peca na escolha de dramatizar demais em vez de discutir mais profundamente as teorias religiosas. Uma história bonita que apela totalmente para o lado emocional de seu público.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

O Céu é de Verdade (Heaven Is For Real)

EUA - 2014. 104 minutos.

Direção: Randall Wallace

Com: Connor Corum, Greg Kinnear, Kelly Reilly, Thomas Haden Church, Margo Martindale e Lane Styles.


Nota: 3

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