sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Attila Marcel

Conhecido pelas excelentes animações “A Velha Senhora e os Pombos”, “As Bicicletas de Belleville” (que concorreu ao Oscar de Melhor Animação e Melhor Canção Original em 2004) e “O Mágico”, o cineasta francês Sylvain Chomet teve seu primeiro contato com o live action ao dirigir o segmento lúdico “Tour Eiffel” no filme “Paris, Te Amo”. Com o mesmo título de uma música que faz parte da trilha sonora de “As Bicicletas de Belleville”, seu trabalho mais famoso, “Attila Marcel” marca definitivamente – e com louvor – a entrada de Chomet no mundo dos longas-metragens em live action.


O roteiro, também assinado pelo diretor, gira em torno do protagonista Paul (o ótimo Guillaume Gouix, de “Copacabana” e “Aliyah”), um homem de 35 anos com espírito de criança, que não fala desde os dois anos, quando viu seus pais morrerem, e não se lembra dos momentos que passou ao lado deles devido ao trauma. Reprimido pelas tias (Hélène Vincent e Bernadette Lafont, em seu último filme), Paul vive uma rotina sufocante que consiste basicamente em tocar piano em casa e nas aulas de dança de suas tias. Até o dia em que seu caminho se cruza com o de uma extravagante vizinha, madame Proust (Anne Le Ny), que o ajuda a recuperar a memória aos poucos em curiosas sessões baseadas em música, chás alucinógenos e madeleines. É assim que Paul inicia um processo de libertação de sua alma, aprisionada no sonho das tias de torná-lo um pianista famoso.


Se os olhos são a janela da alma, madame Proust conseguiu enxergar a de Paul através de seus olhos tristes, que Guillaume Gouix, sem dizer uma palavra, fez com que se expressassem melhor do que qualquer fala, numa atuação sensível e maravilhosa. Como nos longas anteriores de Chomet, em “Attila Marcel” o humor infantil e irônico se faz presente, do mesmo modo que a trilha sonora marcante, a figura de senhoras idosas e as falas limitadas do personagem principal, mostrando enorme semelhança em vários pontos com “As Bicicletas de Belleville”. É na simplicidade da história de Paul, enriquecida pela atmosfera lúdica à la Jean-Pierre Jeunet (em especial “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”), que reside a beleza de “Attila Marcel”. Da mesma maneira que Jeunet encanta com seus enredos fantásticos repletos de sutileza, delicadeza e particularidades, envoltos numa belíssima e característica fotografia, Chomet conseguiu realizar uma grande proeza ao se aproximar do mestre do gênero, atingindo em cheio o coração do espectador com seu mais recente filme, que transborda amor, doçura e faz você sair mais leve na sala de cinema.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Attila Marcel (Idem)

França - 2013. 106 minutos.

Direção: Sylvain Chomet

Com: Guillaume Gouix, Anne Le Ny, Bernadette Lafont e Hélène Vincent.


Nota: 4

sábado, 1 de novembro de 2014

Os Boxtrolls

Imagine uma cidade cuja estratificação social fosse baseada pelas cores dos chapéus de seus habitantes e que estes fossem obcecados por elegância e queijo, a ponto de todas as ruas terem nomes de laticínios. Agora imagine que abaixo desta cidade vivem pequenas criaturas vestidas com caixas de papelão, que roubam lixo durante a noite para incrementarem suas invenções, tidas por todos os cidadãos como monstros ladrões de crianças e queijos. Está cidade é Pontequeijo, da nova animação do Estúdio Laika (“Coraline” e “ParaNorman”), “Os Boxtrolls”, inspirada no livro de Alan Snow, "A Gente é Monstro!" ("Here Be Monsters").


O homem mais poderoso da cidade, o Sr. Roquefort (mais uma referência queijística), é também o seu líder e preside as reuniões de degustação de queijo restrita aos quatro privilegiados que trajam chapéu branco, expoente máximo de poder de Pontequeijo que desperta uma inveja venenosa em Arquibaldo Surrupião, exterminador de pestes que usa um chamativo chapéu vermelho. No passado, o vilão viu um bebê ser levado pelos boxtrolls, que foi o estopim da lenda acerca dos inofensivos mini ogros azuis. O que ninguém na cidade sabe é que, na verdade, as criaturinhas criaram o bebê como igual membro de sua sociedade subterrânea e o batizaram de Ovo. Quando Ovo é descoberto pela mimada Winnie, filha do Sr. Roquefort, muitas coisas começam a mudar em Pontequeijo, incluindo um aumento no desejo de Surrupião de entrar para o limitadíssimo clã dos chapéus brancos como prêmio pela eliminação de todos os boxtrolls.


À primeira vista, “The Boxtrolls” (no original) pode parecer apenas uma simples animação, mas com o decorrer do filme, é possível perceber a sua complexidade por meio de diversas referências à sociologia, com camadas de crítica social, e a outros longas, que vão desde filmes da Disney como “Tarzan” e “O Rei Leão” a “Ratatouille”, “Meu Malvado Favorito” e “MicMacs - Um Plano Complicado”, de Jean-Pierre Jeunet. Mérito para Irena Brignull (roteirista da nova adaptação de “O Pequeno Príncipe” de Mark Osborne) e Adam Pava (da série animada “A Mansão Foster para Amigos Imaginários”), responsáveis pelo roteiro desta história envolvente, que, em conjunto com a direção de Graham Annable (estreante em longas) e Anthony Stacchi ("O Bicho Vai Pegar") ganhou vida e se transformou num maravilhoso mundo vitoriano e steampunk em stop-motion.


Outro fator interessante presente na trama é a dualidade bem versus mal através de dois ajudantes de Surrupião, que refletem a todo momento se são os mocinhos por capturarem os boxtrolls, se estão do lado certo e se seus atos são realmente corretos. São eles também que transmitem uma reclamação de classe dos animadores disfarçada de mera ponderação e breve demonstração dos bastidores da animação após os primeiros créditos. Não saia da sala antes de assistir, pois é genial.


Ao contrário do que acontece em “Meu Malvado Favorito”, em que os minions roubam a cena e se transformam na atração principal do longa, em “Os Boxtrolls”, o destaque fica para a trama envolvendo Ovo, e não para os pequenos personagens-título. Além disso, a tentativa de fazer frente ao sucesso dos minions com personagens, em alguns pontos, similares não foi tão bem sucedida, pois os amarelinhos são mais fofos, simpáticos e carismáticos que os pequeninos ogros azuis. Apesar disso, os boxtrolls não deixam de ser personagens criativos, já que usam caixas como um casco de tartaruga para se proteger e possuem nomes com base na imagem ou palavra impressa em suas respectivas caixas, algo inédito no cinema. Assim, o resultado final é bastante positivo. “Os Boxtrolls” é uma animação divertida, cativante e inteligente, dona de um visual incrível, repleto de detalhes e cores vibrantes, que só o stop-motion pode proporcionar. Uma agradável surpresa em meio ao atual cenário com tantos remakes e animações sem profundidade. Vida longa ao Estúdio Laika!

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Os Boxtrolls (The Boxtrolls)

EUA - 2014. 122 minutos.

Direção: Anthony Stacchi e Graham Annable

Com: Ben Kingsley, Isaac Hempstead-Wright, Elle Fanning, Jared Harris, Toni Collette, Nick Frost, Richard Ayoade, Tracy Morgan e Simon Pegg.


Nota: 4

sábado, 18 de outubro de 2014

Será Que?

Daniel Radcliffe vem tentando provar que seu talento como ator vai muito além de Harry Potter desde o fim da saga. A partir de então, vem aceitando papéis bem diferentes do jovem bruxo: já protagonizou o terror “A Mulher de Preto”, a série “Diário de um Jovem Médico”, interpretou o poeta Allen Ginsberg em “Versos de um Crime”, e em breve será um chifrudo peculiar no longa “O Pacto”. No atual “Será Que?”, dirigido pelo canadense Michael Dowse (“Os Brutamontes” e “Uma Noite Mais Que Louca”), Radcliffe se joga pela primeira vez no mundo das comédias românticas, fazendo par com a atriz Zoe Kazan, que já teve essa experiência anteriormente em “Ruby Sparks – A Namorada Perfeita” (2012) e “Tudo Acontece em Nova York” (2011).


Em “What If” (no original), Wallace (Radcliffe) e Chantry (Kazan) são dois jovens na faixa dos 20 anos que se conhecem por acaso numa festa e sentem uma sintonia instantânea. O grande problema é que ela já está comprometida com Ben (Rafe Spall) e não pretende terminar o namoro. Ele, que depois de 1 ano na fossa após o término de um relacionamento, finalmente resolve dar a volta por cima, acaba na friendzone de Chantry, reprimindo seus sentimentos para continuar perto dela, mesmo que seja apenas como amigo.


Zoe Kazan rouba a cena como Chantry, enquanto o desempenho de Daniel Radcliffe alterna entre bom e mediano durante toda a trama. Quem também merece destaque é o casal amigo, interpretado por Adam Driver, da série “Girls”, e Mackenzie Davis (“Namoro ou Liberdade?”), que compõem um improvável, divertido e fogoso par contrastando com o romance enrustido dos amigos que parece nunca deslanchar por insegurança e indecisão de ambos.


Com um roteiro previsível de Elan Mastai, “Será Que?” é uma comédia romântica que funciona por investir num casal protagonista fofo e carismático que se descobre aos poucos ao longo da trama, pelo qual o público (especialmente o feminino) adora torcer. A relação entre os dois é muito descontraída, repletas de piadas prontas e ironias constantes (algumas vezes forçadas), e é possível perceber de cara a química entre eles, o que lembra em parte o início do romance de Gus e Hazel no recente “A Culpa é das Estrelas”.


Baseado na peça canadense “Toothpaste and Cigars”, “Será Que?” é mais um representante do gênero e possui similaridades com os conhecidos longas “Harry e Sally” (1989), “Amor ou amizade” (2000), “O melhor amigo da noiva” (2008) e "(500) Dias Com Ela" (2009). Não é um filme original, mas cumpre muito bem o seu papel de entreter sem gerar maiores expectativas.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Será Que? (What If)

Canadá - 2012. 102 minutos.

Direção: Michael Dowse

Com: Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Adam Driver, Rafe Spall, Mackenzie Davis e Megan Park.


Nota: 3

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Bela e a Fera

Quando Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve escreveu “A Bela e a Fera” em 1940, provavelmente não pensou que sua história se tornaria tão famosa e que ganharia tantas versões – literárias, televisivas, teatrais e cinematográficas – em todo o mundo. No cinema, teve sua primeira representação pelas mãos de Jean Cocteau e René Clément em 1946, mas foi a animação musical da Disney (1991), a primeira a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, que internacionalizou e tornou o conto de fadas francês um clássico inesquecível. De volta às origens, o mais recente remake homônimo de “A Bela e a Fera” estreia este mês nos cinemas brasileiros num projeto ambicioso do diretor Christophe Gans (“O Pacto dos Lobos”) com muita magia, efeitos especiais e aventura.


Numa mistura da versão de Cocteau com a da Disney, “La Belle et la Bête” (no original) se passa no ano de 1810. Um comerciante (André Dussollier), pai de três filhos e três filhas, perde toda a fortuna num naufrágio que destrói suas três embarcações e se muda para o campo a fim de evitar a humilhação. Somente a caçula Bela (Léa Seydoux) aprecia a mudança de ares, e a inquietação toma conta de seus irmãos. Quando seu pai arranca uma rosa do jardim de um palácio misterioso, a Fera (Vincent Cassel) surge e o condena à morte pelo roubo em sua propriedade. Bela, se sentindo culpada pelo que aconteceu, vai até o castelo para salvar a vida do pai e passa a viver lá com a Fera, com quem é obrigada a jantar diariamente. Aos poucos, ela descobre o passado do monstro e começa a se envolver com ele, que vê na moça uma grande possibilidade de romper a sua maldição.


Com uma fotografia belíssima de cores vibrantes, ótimos efeitos especiais na maior parte do tempo e figurinos luxuosos impecáveis, “A Bela e a Fera” é o tipo de produção que se vê muito pouco na França, não só pelo alto orçamento exigido como por ser bastante hollywoodiano. Apesar de Gans negar influência de produções americanas do gênero, seu longa não deixa nada a desejar em relação às mesmas, como “Branca de Neve e o Caçador” e “A Garota da Capa Vermelha”, e, sim, possui semelhanças, principalmente no que se refere ao excesso na utilização de efeitos especiais, que soam artificiais em cenas específicas. Não vemos em momento algum da narrativa a influência de seu ídolo, Hayao Miyazaki, que Gans afirma haver.


“A Bela e a Fera” de Gans mescla romance fantástico, aventura e mitologia num filme francês bastante americano, algo raro no cinema do país de Napoleão, e acaba deixando o espectador perdido quanto ao gênero de filme a que está assistindo. Se as sequências que mostram o passado de Fera como príncipe através dos sonhos de Bela são de grande beleza e com efeitos interessantes, elas também apresentam elementos mitológicos que parecem perdidos em meio a toda a trama, ao mesmo tempo em que há uma boa reconstituição de época. Além disso, é muito pouca a interação de Bela com as criaturinhas que ela diz serem suas melhores amigas no castelo e o romance com Fera fica em segundo plano no roteiro de Gans, que deseja mostrar o quanto sua película é visualmente suntuosa em detrimento da coerência da história. Talvez este seja um dos motivos pelos quais os atores não parecem confortáveis em seus papéis e sua atuação não tenha nem metade do brilho empregado em seus figurinos e cenários.


Altos e baixos compõem “A Bela e a Fera” de Gans, o que faz dele um filme mediano. Devido à combinação inusitada de temas, é difícil afirmar que se destina totalmente ao público infantil, que poderá se sentir confuso e entediado em diversos momentos onde há diálogos mais longos que o necessário e visível perda de ritmo e de sentido na história. Aliás, o mesmo pode ocorrer com os adultos. A combinação de elementos do cinema americano com elementos do cinema francês não deu muito certo desta vez. Entretanto, não se pode negar que a iniciativa de Gans em investir num gênero pouco recorrente no cinema francês é louvável, e por isso merece créditos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Bela e a Fera (La Belle et la Bête)

França - 2014. 112 minutos.

Direção: Christophe Gans

Com: Vincent Cassel, Léa Seydoux e André Dussolier.


Nota: 3

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