quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobrevivi ao Holocausto

O Holocausto é um assunto bastante recorrente tanto na literatura quanto no cinema. Por se tratar de uma das maiores tragédias da humanidade, com consequências visíveis e também veladas até hoje, as histórias relacionadas ao Holocausto continuam a se destacar e a emocionar um grande número de pessoas. Cinematograficamente, o tema sobressai-se mais na forma de documentário devido à maior veracidade que carrega, apesar de não ser a mais popular entre o grande público, que digere melhor a ficção. Aproveitando-se do fato de que o Brasil foi um país acolhedor de muitos imigrantes judeus na época que fizeram daqui seu lar permanente, Marcio Pitliuk, escritor (autor de “O homem que venceu Hitler”), cineasta, estudioso e divulgador do Holocausto, escreveu o roteiro do documentário “Sobrevivi ao Holocausto”, dividindo a direção com Caio Cobra (“Crônicas de um Assassino”).


Após os longas “Marcha da Vida” (2011), “100 anos de imigração judaica do leste europeu” (2011) e ”200 anos de imigração judaica do Mediterrâneo” (2013), Pitliuk lançou este ano no 18º Festival de Cinema Judaico de São Paulo seu filme que conta como Julio Gartner, um judeu polonês, conseguiu sobreviver ao pesadelo do Holocausto entre 1939 e 1945. Acompanhado por Marina Kagan, amiga de sua neta que possui a mesma idade que ele quando foi preso num campo de concentração, Gartner viaja para todos os lugares que fizeram parte de seu doloroso passado até conseguir chegar ao Brasil.


Entre historiadores, professores, pesquisadores, curadores de museus e rabinos, cada um dá uma contribuição para enriquecer a história contada por Gatner ao longo do filme. Uma pequena aula de história, principalmente para as novas gerações, que estão tão distantes do tema. Marina, apesar de ser somente uma figurante na trama, é judia e dialoga com esta parcela mais jovem que, assim como ela, não conhecia boa parte da história de seus antecedentes.


Provavelmente para deixar o espectador mais chocado e emocionado com algumas cenas fortes, a trilha sonora de Paulo Garfunkel alterna entre silêncio e sons pontuais com tom ora de suspense, ora de melancolia. Talvez resida aí o maior erro do documentário, já que não era necessário aumentar ainda mais a carga dramática de um assunto tão pesado. Entretanto, “Sobrevivi ao Holocausto” não perde em momento nenhum o seu mérito, pois a história de alguém que sobreviveu em meio ao assassinato de seis milhões de judeus merece ser contada. Julio Gartner, além de compartilhar com o público seus relatos, também transmite o que aprendeu com o seu passado traumático e a como conviver com ele. Não saia nos créditos, pois são um complemento ao filme.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Sobrevivi ao Holocausto

Brasil - 2014. 90 minutos.

Direção: Caio Cobra e Marcio Pitliuk

Com: Julio Gartner e Marina Kagan.


Nota: 4

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Estudante

Conhecido pelo roteiro de filmes como “Leonera”, “Abutres” e “Elefante Branco”, de Pablo Trapero, o argentino Santiago Mitre fica à frente da direção de seu primeiro longa-metragem, “O Estudante”. Nele, conhecemos Roque, o estudante do título, que já largou dois cursos universitários e vai para Buenos Aires para cursar o terceiro, sem nenhum objetivo concreto. Originário do interior, Roque (Esteban Lamothe) é fisgado pelo mundo da política universitária depois de se interessar por Paula (Romina Paula), uma professora bastante engajada – e atraente – do campus. Pouco a pouco, ele vai se envolvendo com as causas e integrantes do partido de Paula, até estar finalmente integrado ao mesmo a ponto de largar os seus estudos e se dedicar somente à luta pela liderança estudantil em sua universidade.


O mundo da política universitária apresentado a Roque não é muito diferente do universo político fora dela, podendo facilmente ser traçado um paralelo entre ambos. Com um enredo universal, Mitre escancara para o espectador os bastidores da política interna das faculdades públicas e prova, mais uma vez, que somente ideais jovens revolucionários não são páreo frente a um jogo de poder e interesse sem limites. Vemos a ingenuidade inicial de Roque para com a política se esvair gradualmente e se transformar em desilusão ao se dar conta da torpeza presente em seus imorais meandros. A tensão da trama é crescente e repleta de códigos e intrigas para serem desvendados tanto por Roque quanto pelo público, que é convidado a questionar a sua moralidade juntamente ao protagonista.


O que poderia ser uma desvantagem para “El Estudiante” (no original) é convertido em vantagem pela competência de Mitre como diretor, que, com um baixíssimo orçamento, uma trilha sonora marcada, diálogos quase consecutivos e uma câmera por vezes trêmula, deixou um filme com ar documental muito pertinente ao roteiro.

Premiado nos festivais de Toronto, Locarno e BAFICI, “O Estudante” é um thriller político de primeira qualidade, daqueles ascendentes que te prendem sem esforço até o final. E que final!

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Estudante (El Estudiante)

Argentina – 2011. 110 minutos.

Direção: Santiago Mitre

Com: Esteban Lamothe, Romina Paula, Richard Felix e Valeria Correa.


Nota: 5

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Amar, Beber e Cantar

Última obra do diretor francês Alain Resnais (que faleceu este ano), vencedora do prêmio FIPRESCI por unanimidade da Federação Internacional de Críticos de Cinema e do Urso de Prata Alfred Bauer no Festival de Berlim 2014, “Amar, Beber e Cantar” é uma homenagem à vida, à arte e à morte. Baseado na peça “Life of Riley”, de Alan Ayckbourn (também autor da peça “Medos Privados em Lugares Públicos”, outro longa de Resnais), o filme acompanha a vida de seis pessoas que ficam abaladas com a notícia trágica de que seu amigo em comum, George Riley, tem poucos meses de vida, enquanto ensaiam uma peça de teatro amador.


Para tornar tudo mais interessante, Resnais não mostra em momento algum o seu personagem principal para o espectador, mantendo constante mistério acerca do mesmo. George, apesar de permanecer oculto durante toda a película, é a personagem central que direciona toda a trama e rege a vida de seus amigos de longa data. Ele não aparece, porém faz surgir questões conjugais antes suprimidas pelos três casais e cria situações que envolvem desejo, desconfiança e adultério.


Com uma típica montagem de cenários teatrais, as personagens atravessam as cortinas sem cortes e se apresentam ora como se estivessem no teatro, ora como se estivessem no cinema. A mescla entre as duas formas artísticas interfere diretamente no ritmo do script, com oscilação do timing de ambas, e pode confundir e cansar o espectador desavisado. Entretanto, o contexto metalinguístico em que a trama se insere, com representações teatrais, reforça a metáfora da superficialidade humana no que tange à vida adornada de aparências e encenações. Tem-se a alternância lírica entre o real e o ilusório, o drama e a comédia.


Ao contrário do fraco “Comer, Rezar, Amar”, de Ryan Murphy, “Amar, Beber e Cantar” nos desafia a refletir sobre a morte, a relevância da arte sobre a saúde mental e o que realmente importa na vida. Do mesmo modo que George com seus amigos inquietos, Resnais procura fazer com que nossos sentimentos latentes aflorem para que os libertemos e nos tornemos mais leves e menos ansiosos com relação à vida. Não à toa, a escolha do título original “Aimer, Boire et Chanter” vem da valsa de Richard Strauss, interpretada pelo tenor Georges Thill, uma verdadeira ode à existência e à felicidade – justa homenagem.

Em “Amar, Beber e Cantar”, as personagens amam, as personagens bebem (muito), mas é George, que, mesmo sem ser visto e próximo de proferir seu derradeiro suspiro, canta em tom de celebração e jovialidade seus últimos meses de vida. Um belo e otimista ponto final de Resnais.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Amar, Beber e Cantar (Aimer, Boire et Chanter)

França - 2014. 108 minutos.

Direção: Alain Resnais

Com: Sandrine Kiberlain, Hippolyte Girardot, Sabine Azéma, Caroline Sihol, Michel Vuillermoz e André Dussollier.


Nota: 4

sábado, 9 de agosto de 2014

O Menino no Espelho

Baseado no livro homônimo de Fernando Sabino, lançado em 1982, “O Menino no Espelho” é uma homenagem ao autor e conta a história de sua infância no final dos anos 30 em Belo Horizonte. Esta terceira obra de Sabino adaptada para o cinema (as anteriores foram "O Homem Nu" e "O Grande Mentecapto") é a primeira voltada para o público infantil, e tenta suprir a falta de filmes nacionais para esta faixa etária, cuja dominação é das animações americanas, visto que o Brasil investe muito pouco neste nicho.


Fernando (Lino Facioli) é um menino inventivo que sempre se mete em confusões e que, depois de sonhar que estava do outro lado do espelho de seu quarto (como em “Alice no Mundo do Espelho”, livro que o personagem não à toa está lendo), começou a ver o seu reflexo de modo diferente. Mais tarde, o reflexo sai do espelho e apresenta-se como Odnanref (Fernando ao contrário), seu duplo, e os meninos trocam de lugar, assim como na história de “O Príncipe e o Mendigo”. Odnanref substitui Fernando nas tarefas chatas de seu cotidiano e este, começa a viver aventuras até então inimagináveis já vividas por seu clone certinho. O problema é que Odnanref acaba gostando da vida de Fernando e não pretende retornar para dentro do espelho.


Por ser uma adaptação de um livro de contos, o roteiro, escrito a seis mãos por Guilherme Fiúza Zenha, Cristiano Abud e André Carreira, apresenta alguns problemas na junção das histórias. Enquanto algumas possuem perfeita conexão, outras parecem soltas no todo. Por outro lado, o tom lúdico, a bela fotografia e a ótima direção de arte, pontos altos do longa, conseguem amenizar tal deslize. Sob a direção de Fiúza (autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, que deu origem ao filme, “3.000 dias no bunker” e “Amazônia, 20º andar” e um dos diretores de “5 Frações de uma Quase História” com o episódio “145”), “O Menino no Espelho” versa com outros filmes infantis brasileiros – “Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme”, “Menino Maluquinho - O Filme” e “Eu e Meu Guarda Chuva” – por compartilhar elementos comuns, como as aventuras com amigos, a magia e a eterna alma de criança. O clube secreto P.E.I.D.O., criado por Fernando e seus amigos, provavelmente foi inspirado no clube do bolinha do clássico “Os Batutinhas”, que também celebra a imaginação e mostra uma infância calcada nas brincadeiras de rua e na criatividade, contrária ao atual cenário de uma infância cercada de jogos e aparelhos eletrônicos, em que as crianças quase não saem mais de casa e socializam entre si.


Lino Facioli, erradicado na Inglaterra desde os 4 anos, atua em seu primeiro filme brasileiro, já tendo participado do americano “O Pior Trabalho do Mundo” e da série “Game of Thrones” como Robin Arryn. Facioli tem altos e baixos como Fernando e Odnanref, mas pelo desafio de interpretação de dois papeis diferentes num mesmo trabalho, conseguindo diferenciá-los para o espectador – como realizou Mateus Solano, com destaque na trama pela atuação de um pai amoroso que sente ao castigar o filho, na novela global “Viver a Vida” –, o menino tem seu mérito. Regiane Alves, como a mãe rígida, e Laura Neiva, como a prima, têm atuações corretas, porém sem muito brilho. O elenco infantil (principalmente Giovanna Rispoli) acaba se destacando por suas aventuras e cenas divertidas, como o roubo de uma manga no quintal do vizinho e a briga na escola. Embalado por uma trilha sonora brincalhona, “O Menino no Espelho” vai agradar não só as crianças como também os adultos, por despertar uma grande nostalgia da infância; é um filme para toda a família.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Menino no Espelho

Brasil - 2014. 78 minutos.

Direção: Guilherme Fiúza Zenha

Com: Lino Facioli, Mateus Solano, Regiane Alves, Laura Neiva, Ricardo Blat, Giovanna Rispoli, Gisele Fróes e Murilo Grossi.


Nota: 4

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