domingo, 17 de novembro de 2013

A Garota das Nove Perucas

Ser diagnosticado com uma doença grave, e talvez terminal, não é nada fácil, ainda mais quando se é jovem e tem-se toda uma vida pela frente. O medo é o primeiro sentimento que pousa, mas é preciso ter esperança, além do amor e apoio de quem se ama, para superar a longa jornada que vem pela frente. Como citou Voltaire: "A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo". Sempre haverão instantes de tristeza, porém é preciso superá-los sempre para seguir em frente.

Sophie é uma jovem de 21 anos linda, alegre e cheia de planos que descobre estar com um câncer raro. Apesar do choque inicial, ela decide enfrentar a doença de cabeça erguida, sem se privar de nada o que fazia antes e com novas inseparáveis companheiras: nove perucas de cores e estilos variados, que a fazem se transformar em diferentes pessoas a cada momento e contribuem para que ela passe pela doença de uma maneira muito mais leve e bem humorada.


A Garota das Nove Perucas é um filme baseado na história real de uma menina (Sophie van der Stap) que, pouco tempo após entrar na faculdade, foi diagnosticada com câncer na pleura, um tipo raro da doença no pulmão que possui baixas chances de cura. Por causa do tratamento, os planos de Sophie de dividir um apartamento com sua melhor amiga Annabel (Karoline Teska) tiveram que ser adiados, mas nada foi o bastante para desanimá-la. Ela teve apoio incondicional dos pais, da irmã, dos amigos e ainda engatou um relacionamento com Rob (David Rott). No hospital, construiu amizade com um simpático enfermeiro – Bastian -, que a ajudava em suas escapadas, e com outra interna já em fase terminal chamada Chantal (Jasmin Gerat).

Logo que seu cabelo começou a cair e sua auto-estima a diminuir, surgiram Stella, Daisy, Sue, Blondie, Platina, Uma, Pam, Lydia e Bebé – suas nove personalidades inéditas – e um blog pessoal, onde Sophie passou a escrever todo o seu cotidiano das 54 semanas de quimioterapia e seus sentimentos – os altos e baixos – durante o tratamento, levando mensagens de luta e esperança a pessoas que estavam passando pela mesma situação. Tal blog foi tão importante em sua vida que ela foi convidada por uma importante revista a dar uma entrevista e ainda lhe rendeu um livro, na vida real, que já foi traduzido para 18 idiomas.


Heute bin ich blond  (no original) não foi o primeiro filme a tratar do assunto de forma delicada e realista. É possível estabelecer paralelos entre Sophie e as personagens Annabel (Mia Wasikowska) do filme Inquietos, dirigido por Gus Van Sant (Milk - A Voz da Igualdade), e Marley Corbett (Kate Hudson) do filme Pronta Para Amar, dirigido por Nicole Kassell (O Lenhador). A primeira é uma adolescente com uma doença terminal que, mesmo sabendo que tem pouco tempo de vida, não perde em nenhum momento a sua alegria de viver e inicia um namoro com Enoch, que entra de cabeça na relação e finalmente amadurece. Já a segunda é uma mulher que se descobre com um câncer terminal, fica sem esperanças, mas tenta transparecer aos que a cercam que está lidando bem com as circunstâncias. Quando o charmoso Dr. Julian Goldstein (Gael García Bernal) entra em sua vida, depois de certa hesitação da parte de Marley, ela começa a viver e enxergar seus últimos meses de vida por um lado bem mais positivo. Embora o final de Sophie tenha sido mais feliz que o das outras, as três continuaram seguindo suas vidas da mesma maneira depois do prognóstico médico negativo, mantiveram-se contentes em relação à vida e experimentaram o amor em meio a uma ingrata realidade.

Marc Rothemund, também diretor do longa Uma Mulher Contra Hitler (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e ao Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2006, e vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim, além de outros dezoito prêmios em diversos festivais internacionais), conseguiu realizar um trabalho competente e transmitir a emoção necessária em todas as cenas, de modo a ressaltar o espírito positivo de superação que a história deseja propagar. Mesmo quem nunca passou por situação semelhante consegue se identificar e se emocionar com a trajetória da personagem principal, muito bem interpretada pela talentosa estreante no cinema Lisa Tomaschewsky. A trama intercala-se entre drama e comédia de forma equilibrada e genuína, e o ritmo se mantém constante durante todo o filme. O roteiro, assinado por Kati Eyssen, compôs uma bela parceria com Rothemund, que resultou em uma película que merece ser vista. A Garota das Nove Perucas não veio para passar despercebida.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Foco Alemanha

A Garota das Nove Perucas (Heute bin ich blond)

Alemanha / Bélgica - 2013. 117 minutos.

Direção: Marc Rothemund

Com: Lisa Tomaschewsky, Karoline Teska e David Rott.


Nota: 4

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