terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Outra Pátria

Traduzindo ao pé da letra, “Die Andere Heimat” (título original do longa-metragem) quer dizer “a outra casa”, e o subtítulo “Chronik Einer Sehnsucht” significa “uma crônica da saudade”. Assim, A Outra Pátria foi uma feliz tradução para o português. Entretanto, “Heimat” tem um significado muito mais profundo em alemão, de difícil tradução para outro idioma. Em um artigo para a Revista Primus Vitan, o alemão Wolfgang Theis definiu o termo como: “um determinado cenário, em um lugar que chamamos de lar, onde normalmente nos sentimos bem-vindos e onde encontramos nossa própria natureza como indivíduos ao olharmos para nós mesmos”. É isso o que a fictícia vila de Schabbach é para seus moradores. Com um forte regime monárquico restritivo (como é mostrado logo na primeira cena do filme, com a citação de regras da Monarquia por um oficial), há escassez de comida e emprego no local. Muitos se questionam sobre abandonar a sua terra natal e ir para o Brasil, onde há a promessa de prosperidade na metade do século XIX, em especial Jakob, um jovem que lê todos os livros que encontra pela frente e começa a estudar o idioma de povos indígenas brasileiros, enquanto sonha com uma vida fora de seu país.


A fotografia em preto e branco do filme se assemelha à fotografia de A Fita Branca, de Michael Haneke, com o preto forte e o branca estourado, porém com outra finalidade e com uma diferença – em A Outra Pátria, as flores, os papéis de parede floridos e os pequenos frutos recebem toques de cor. Enquanto neste a utilização de cores neutras é para dar um ar triste e melancólico à vila, em A Fita Branca é para conferir frieza à história.


Em meio à toda a situação da vila e à possibilidade de emigração, o diretor Edgar Reitz dá foco à família de Jakob e a seus diversos acontecimentos, desde o casamento de seu irmão com a moça de que ele gosta e a perda da filha do casal, até a doença grave da mãe. A migração, que deveria ser o tema principal, acaba ficando em segundo plano na história, dando espaço a um melodrama familiar arrastado, com muitos episódios de desgraça. Pelo fato de o filme ser mais longo que o necessário, também acaba se tornando cansativo. A emigração para o Brasil é mostrada de fato apenas no final do filme através da cena de saída das famílias da vila em caravana e de cartas do irmão de Jakob e de sua esposa, contando como foi a viagem e sobre seu estabelecimento na terra brasilis. No restante, a migração é somente citada algumas vezes com a dúvida shakespeariana de sair ou não sair de Schabbach à procura de uma vida melhor. A Outra Pátria é um filme que tinha tudo para ser excelente, mas que se perdeu no meio do caminho. Por ser o primeiro longa-metragem de uma nova série sobre o “Heimat”, projeto de longa data de Reitz, ainda há esperança de que melhore nos próximos filmes.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Foco Alemanha

A Outra Pátria (Die Andere Heimat - Chronik Einer Sehnsucht)

Alemanha / França - 2013. 130 minutos.

Direção: Edgar Reitz

Com: Marita Breuer, Antonia Bill, Jan Dieter Schneider, Julia Prochnow e Werner Herzog.


Nota: 3

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...