sábado, 30 de novembro de 2013

Cine Holliúdy

Baseado no curta-metragem Cine Holiúdy - O Astista Contra o Caba do Mal (2004), Cine Holliúdy conta a história de Francisgleydisson, um típico cearense do interior que tenta manter aberta sua sala de cinema, a grande paixão de sua vida, lutando contra a chegada da TV, em plenos anos 70. Na tentativa de realizar seu sonho, ele e sua família se mudam para Pacatuba, um pequeno município com uma exótica plateia que esperava ansiosamente por um cinema na cidade.

O filme começa mostrando a vida em família de Francisgleydisson (Edmilson Filho), sua esposa Maria das Graças (Miriam Freeland), seu filho Francisgleydisson Filho (Joel Gomes), apelidado de Francinho, e seu mico de estimação Montanha. Francis, apelido de nosso protagonista, é um contador de histórias nato e adora contar histórias mirabolantes, principalmente de filmes, para seu filho Francinho, que cresce envolto aos sonhos do pai, tomando-os para si. A mãe é um pouco mais realista, preocupada com seu filho, como ela mesma repete para Francis algumas vezes, mas também acaba embarcando na onda sonial de seu marido, sempre o ajudando e apoiando em tudo. Ao contrário do curta, que se limita a apenas uma cena dentro do cinema, o filme mostra a trajetória de Francis até conseguir montar o Cine Holliúdy e também o que aconteceu muitos anos depois de ter alcançado este sonho.


Sendo introduzido pela música “Kung Fu Fighting”, do cantor jamaicano Carl Douglas, assim como na comédia singapuriana That’s The Way I Like It (Glen Goei, 1988), o público já pode prever um dos temas que será destaque em Cine Holliúdy – o kung fu. Francisgleydisson é fã da arte marcial e possui vários filmes que incluem muitos golpes da luta, com direito a voadoras na pleura e com dublagem em “cearencês”. Em That’s The Way I Like It, o protagonista Hock (Adrian Pang) também adora kung fu e tem Bruce Lee como grande ídolo. Há também uma discreta referência à Era Disco, que estava ocorrendo na mesma época em que se passa o filme, com a música introdutória, uma outra disco music como fundo da cena de revitalização do cinema em família e nos trajes do personagem principal (calça de boca larga e camisas bem coloridas).

Cine Holliúdy é uma tentativa deveras pretenciosa de ser um Cinema Paradiso (1988) do Ceará. Halder Gomes buscou mais do que inspiração para seu longa na obra prima de Giuseppe Tornatore. Nuovo Cinema Paradiso (no original) é provavelmente a maior homenagem metalinguística ao cinema já realizada, envolvida numa belíssima rede de amor, sonhos e esperança, essências do filme de Gomes. Os protagonistas Francisgleydisson e Salvatore (Jacques Perrin) possuem o amor incondicional pelo cinema e a persistência como principais atributos comuns. Além disso, a cena da primeira sessão do cinema de Pacatuba assemelha-se às cenas das sessões no Cinema Paradiso, com personagens divertidos com características marcantes.


Quem assistiu ao curta que originou o filme, Cine Holiúdy - O Astista Contra o Caba do Mal, pôde perceber que ambos são bem parecidos e possuem até falas repetidas vindas dos mesmos personagens na cena citada anteriormente. Gomes poderia ter tido mais originalidade ao escrever o roteiro de Cine Holliúdy e aproveitá-lo melhor. A cena que mais se destaca na trama, que é bem mais prolongada do que no curta, é quando ocorre um problema técnico com o projetor e Francisgleydisson precisa improvisar para contornar a situação, transformando a sessão de cinema em um verdadeiro stand-up kung fu. A película tem momentos divertidos, muitas vezes marcados por expressões do “cearencês”, com um humor leve sem precisar apelar para palavrões e cenas picantes, como a maioria das comédias brasileiras na atualidade. Só por isso já tem seu mérito. Conseguir entreter o espectador fugindo do óbvio num cenário cinematográfico de comédia cada vez mais enlatado é uma grande conquista.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Cine Holliúdy

Brasil - 2013. 91 minutos.

Direção: Halder Gomes

Com: Edmilson Filho, Miriam Feeland, Roberto Bomtempo, Fiorella Mattheis, Marcondes Falcão, Rainer Cadete, Marcio Greyck, Joel Gomes, Jesuíta Barbosa e Karla Karenina.


Nota: 3

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