quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dreileben: Um minuto no escuro

Terceira e última parte da trilogia Dreileben, Um minuto no escuro faz um estudo psicológico do personagem cuja fuga do hospital foi tema de fundo para os outros dois filmes. Neste filme, é possível perceber mais claramente a forte influência da tradição romântica alemã no que se refere à aproximação com a natureza e em enxergá-la tanto como um lugar de perigo quanto como um lugar de inspiração.

Frank Molesch (Stefan Kurt), assassino sexual convicto, é levado por policiais ao hospital de Dreileben para dar o último adeus a sua falecida mãe, quando aproveita a oportunidade para fugir e se esconder nas matas da floresta da Turíngia. Entretanto, o isolamento e o conhecimento de estar sendo caçado de forma incessante pela polícia começam a deixá-lo transtornado e com medo. Quem se aproxima mais da verdade é um detetive que está de licença médica.


Dreileben: Um minuto no escuro centra-se nas investigações do detetive local Marcus Keil (Eberhard Kirchberg), encarregado do caso de Frank Molesch. Baseado no vídeo de segurança que mostra Molesch minutos antes de matar sua derradeira vítima, com o momento crucial perdido e sem possibilidade de recuperação (o título do filme faz alusão a este fato), Keil tenta entender a mente de Molesch para desvendar o crime, mesmo com certas dúvidas ocasionais se ele é realmente o culpado, enquanto a polícia continua a caçá-lo pelas matas. A reconstituição da cena do assassinato armada por Keil lembra a reconstituição feita por Espósito (Ricardo Darín) em O Segredo dos Seus Olhos (Juan José Campanella) para encontrar e prender o assassino Gómez (Javier Godino). Molesch e Keil são espelhos um do outro. Ao longo do filme, pode-se observar como suas experiências como pai, no caso do detetive, e como filho, no caso do assassino, influenciam suas vidas e contribuem para as suas atuais situações.

A história é contada em grande parte do ponto de vista de Molesch, mostrando como conseguiu escapar do hospital, seus primeiros instantes foragido, seu novo estilo nômade na floresta para não ser encontrado, seu encontro com a menina do casal do primeiro filme – Algo melhor do que a morte – na cena em que se conheceu, sua luta para conseguir comida (inclusive roubando sanduíches de turistas), a amizade com uma garotinha que também estava se escondendo na floresta e a sua volta às lembranças do passado em sua antiga casa.


O encontro casual, seguido de uma improvável amizade, entre Molesch e Cleo (Paraschiva Dragus) na floresta é um dos pontos altos do filme. Ele está comendo os sanduíches que afanou dos turistas e ela surge de uma árvore dizendo que também está com fome e pede a Frank que divida sua comida com ela. Ele hesita um pouco, mas acaba dividindo. Cleo, sem saber que Frank é um criminoso molestador, começa a puxar assunto com ele e o ajuda a se proteger dos policiais que estão rondando a floresta junto com ela em seu esconderijo. Inocentemente, ela pensa que eles a estão procurando, e não seu novo amigo Frank. Apesar de seu histórico brutal, Molesch embarca nessa amizade e protege Cleo enquanto estão próximos.

A cena em que Molesch entra em sua antiga casa também merece destaque. É nela que descobrimos que sua vida inteira foi ditada por sua mãe adotiva e autoridades externas. Ele acha documentos antigos, que representam a opressão que sofreu em seu passado, e os queima todos, junto com a cabana que um dia chamou de lar. Tal episódio é o que melhor demonstra o quanto Molesch é uma pessoa traumatizada e mentalmente instável.


Christoph Hochhäusler (A Cidade Abaixo, que também teve sua estreia no Brasil no Festival do Rio deste ano) é o diretor e roteirista da última parte do quebra-cabeças da trilogia Dreileben. O thriller Um minuto no escuro apresenta eficazmente o fascínio de Hochhäusler por situações de risco e comportamento ambíguo, já demonstrado em seus trabalhos anteriores (Caminho do Bosque, 2003, e Low Profile, 2005). Da mesma forma que Dominik Graf na segunda parte Não me siga, Hochhäusler também dá atenção aos detalhes e às expressões das personagens, utilizando suaves e hábeis movimentos de câmera para valorizá-los.

Equiparando-se todas as tramas da trilogia Dreileben, o espectador consegue identificar algumas semelhanças e também diferenças marcantes, concebidas pelas mentes perspicazes do trio de diretores do projeto. A eficiente parceria fílmica entre Christian Petzold, Dominik Graf e Christoph Hochhäusler resultou em três interessantes obras cinematográficas, que dificilmente serão esquecidas quando o assunto forem trilogias de sucesso.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Escola de Berlim

Dreileben: Um minuto no escuro (Dreileben: Eine Minute im Dunkel)

Alemanha - 2011. 90 minutos.

Direção: Christoph Hochhäusler

Com: Stefan Kurt, Eberhard Kirchberg, Holger Doellmann, Paraschiva Dragus, Imogen Kogge e Timo Jacobs.


Nota: 4

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