quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Crô – O Filme

Quem assistiu pelo menos alguma vez à novela da Rede Globo "Fina Estampa" com certeza se lembra do carismático mordomo Crodoaldo Valério, mais conhecido como Crô. Depois de herdar uma fortuna de sua última e falecida patroa Theresa Cristina (interpretada por Cristiane Torloni e lembrada singelamente com uma foto num porta retrato), Crô ficou milionário, parou de trabalhar e se mudou para sua antiga casa de família em São Paulo. Acontece que a vida de ex-mordomo rico o deixou entediado e deprimido, então depois de tentar diferentes profissões, ele resolveu voltar a fazer o que mais gosta: servir mulheres que considera poderosas. Começa aí uma caça por uma nova patroa que mereça ter a afeição do melhor mordomo do Brasil.


O enredo do filme tem como ponto de partida o final que o mordomo teve na novela, pois não era possível desvincular totalmente o personagem da história que o público já conhecia. Por mais diferente que a história seja da novela, o filme acaba sendo uma continuação da mesma, já que Baltazar (Alexandre Nero) e Marilda (Kátia Moraes), dois personagens do núcleo de Crô em "Fina Estampa", também tiveram papéis importantes no longa, assim como Carlos Machado. Além disso, acontece finalmente a revelação do amante misterioso de Crô e este tem o final que grande parte do público queria que tivesse na época. Aguinaldo Silva aproveitou a oportunidade fílmica para fazer esse agrado ao público. O filme também mostra a origem dos hábitos submissos de Crô e de seus engraçados trejeitos: a mãe de Crô, primeira “rainha do Nilo” de sua vida, interpretada por Ivete Sangalo. Não à toa, Crô procurou em suas patroas uma figura de deusa para servir e adorar parecida com sua mãe, que ganhou uma belíssima estátua na entrada de sua nova casa, e a encontrou onde menos esperava.

Assinado por Aguinaldo Silva, autor de "Fina Estampa" e criador do personagem, o roteiro de Crô – O Filme surpreende pela carga dramática, assim como Giovanni Improtta (2013), outro spin-off de um personagem criado pelo mesmo autor, dirigido e protagonizado por José Wilker. A comédia é o ponto forte da trama, porém é misturada a um dramalhão envolvendo trabalho escravo de bolivianas em São Paulo, um assunto que há um bom tempo incomoda Silva, que viu a oportunidade de encaixá-lo neste filme e dar um final inesperado a Crô. Além disso, o descontentamento de Crô devido ao ostracismo causado por sua riqueza também é um tema que levanta outras discussões pertinentes aos dias de hoje: a importância de ter uma ocupação na vida que lhe dê prazer e se o dinheiro traz ou não felicidade. Tal mescla no roteiro fez com que este ficasse um pouco confuso e fez com que o ritmo fosse perdido em alguns momentos. O autor quis ressaltar muitos assuntos de uma só vez e acabou não se aprofundando em nenhum, dando foco sempre nas peripécias Crô e sua turma. A participação especial de Ana Maria Braga serviu para complementar a trama, mas não acrescentou em nada, e a de Gaby Amarantos foi totalmente dispensável, numa cena com interpretação forçada da cantora vestida de “paquita glitterinada”.


Após o sucesso do ótimo Flores Raras, que está sendo lançado agora nos Estados Unidos, Bruno Barreto resolveu voltar a se aventurar no terreno da comédia (a última vez foi no filme Caixa Dois, em 2007) com um spin-off de um personagem vindo da televisão que desejou fazer desde que o viu nos primeiros capítulos de "Fina Estampa". Ele se baseou nos filmes mais antigos do ator e diretor Jerry Lewis, indicando ao ator Marcelo Serrado que os assistisse para ter uma boa base para composição de seu personagem no longa. Crô – O Filme acaba por ser um filme de ocasião com momentos divertidos apenas porque Crô é uma figura caricata e engraçada. Quem assistiu à novela acaba tendo vantagens e se identificando mais com a trama, enquanto quem não a assistiu fica um pouco perdido com os fios soltos. Apesar de tudo, o filme cumpre com seu papel – o de entretenimento sem compromisso e de lembrança do sucesso de seu personagem-título aos fãs.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Crô – O Filme

Brasil - 2013. 90 minutos.

Direção: Bruno Barreto

Com: Marcelo Serrado, Alexandre Nero, Milhem Cortaz, Carolina Ferraz, Carlos Machado, Ivete Sangalo, Kátia Moraes, Úrzula Canaviri e Karin Rodrigues.


Nota: 3

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