quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Os Filhos da Meia-Noite

Em 15 de agosto de 1947, mesmo dia em que a Índia conquistou sua independência, vieram ao mundo em uma maternidade dois bebês à meia-noite – um filho de pais ricos e outro filho de pais pobres. Movida pelo ideal revolucionário do homem amado (“Que os ricos sejam pobres, que os pobres sejam ricos”), a enfermeira Mary (Seema Biswas), em segredo, troca os bebês, fazendo com que um viva a vida do outro – Saleem (Satya Bhabha) ganha uma vida de riqueza enquanto Shiva (Siddharth Narayan) tem uma vida cheia de privações. Os dois meninos têm, então, suas vidas interligadas e marcadas por coincidências, embora estejam sempre em lados opostos.


Baseado no premiado romance homônimo de Salman Rushdie, que foi também o responsável pelo roteiro, o longa Os Filhos da Meia-Noite nos traz uma confusa mistura de guerra, drama, romance e misticismo no melhor estilo indiano, evidenciando as diferenças sociais, os desafios e reviravoltas da vida, com muitas cores e uma trilha sonora tipicamente indiana, tal qual Quem Quer Ser um Milionário? (Danny Boyle, 2009). Através da narração em voice-over de Rushdie, a trama apresenta um bom panorama histórico da Índia pelos olhos de Saleem, que inicia a história por suas origens, falando do avô médico. Entretanto, perde por dar foco à parte melodramática da história, com o estilo próximo ao de uma telenovela.
Todo o filme tem como plano de fundo a guerra entre Índia e Paquistão causada pelos ingleses ao decretar a independência da Índia e fazer a partilha do país, que resultou na divisão paquistanesa em 1971, com a consequente criação de Bangladesh, e na eterna rixa entre Paquistão e Índia. Quem nunca ouviu falar dos conflitos, provavelmente ficará perdido durante a projeção, já que são quase duas horas e meia de um conteúdo muito extenso e pouco desenvolvido.

As crianças que dão título às obras literária e cinematográfica nasceram no mesmo dia que Saleem e Shiva com alguns minutos de diferença, totalizando 582. Cada uma possui um poder diferente, advindo de seu horário de nascimento. Saleem possui o poder paranormal de reunir todos os chamados “filhos da meia-noite”. Não há explicação de como ocorre esta reunião: pelas imagens, parecem almas em volta de Saleem, porém ele consegue tocá-las e vice-versa. É como se houvesse uma curiosa materialização dos “filhos da meia-noite” por meio do mais chamativo atributo de Saleem: seu protuberante nariz. De uma maneira um tanto cômica, os “filhos da meia-noite” são como um grupo de X-Men indianos, com poderes variados que devem ser mantidos apenas entre eles para sua segurança, devido à falta de compreensão e medo da população e do governo. Inicialmente, o elemento místico causa certo estranhamento, mas, ao se fundir com boa parte da trama, torna-se fundamental para o seu desenvolvimento. Os “filhos da meia-noite” fazem alusão à esperança da Índia nas novas gerações para resolução dos conflitos e também aos deuses milenares reverenciados pela cultura hindu.


A co-produção entre Canadá e Inglaterra é o segundo trabalho (também uma adaptação de um livro, no caso “Cracking Índia”, de Bapsi Sidhwa) da diretora indiana radicada no Canadá Deepa Mehta – que já teve dois filmes indicados ao Oscar a Melhor Filme Estrangeiro (Fogo e Desejo, 1996 e Às Margens do Rio Sagrado, 2005) – sobre o mesmo tema, sendo o primeiro Earth 1947 (1999), único filme da Trilogia dos Elementos a não ser indicado ao Oscar. Midnight's Children (no original) tem uma produção de qualidade e boa vontade, mas é cansativo e pouco cativante. Depois da primeira hora de projeção, o espectador vê-se perdido em meio a tantas informações simultâneas que lhe são apresentadas tão rapidamente sem aprofundamento, dando sempre maior importância ao conteúdo melodramático. Mesmo assim, o filme vai agradar quem gosta dos elementos exóticos e misteriosos da Índia.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children)

Canadá / Reino Unido - 2012. 146 minutos.

Direção: Deepa Mehta

Com: Darsheel Safary, Satya Bhabha, Siddharth Narayan, Shahana Goswami, Shriya Saran, Anita Majumdar, Rahul Bose, Samrat Chakrabarti, Seema Biswas, Zaib Shaikh, Soha Ali Khan, Rajat Kapoor, Anupam Kher e Ranvir Shorey.


Nota: 3

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