quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Preenchendo o Vazio

Casamento arranjado é um assunto bastante corriqueiro em tramas cinematográficas. Diversas são as culturas que adotam tal ritual, entre elas indiana, islâmica e judaica. Ao longo dos anos, seu radicalismo diminuiu um pouco, porém a raiz e o princípio das tradições persistem arraigados na mente e no cotidiano de seus cidadãos. O filme israelense Casamento Arranjado (2001), dirigido por Dover Kosashvili, evidencia isso através da história de Zaza (Lior Ashkenazi), que está apaixonado por uma mulher divorciada e mãe de uma filha de seis anos, que é desaprovada por sua família, que deseja que ele se case com uma jovem rica, bonita, virgem e de boa família – aquela velha história. Assim, Zaza precisa escolher entre seu grande amor ou preservar a tradição familiar.

Em Preenchendo o Vazio, está presente a mesma essência, de forma diferente. Shira (Hadas Yaron, uma feliz revelação) é uma moça de 18 anos, a filha caçula da família Mendelman, e vive na comunidade ultra-ortodoxa de Telaviv. Prestes a se casar com um rapaz de que gosta e de boa família, sua irmã Esther morre no parto de seu primeiro filho, Mordechay, deixando viúvo seu marido Yochay (Yiftach Klein). Temendo ficar longe de seu único neto, Rivka (Irit Sheleg) planeja casar sua filha Shira com seu genro, criando uma delicada situação familiar.


Alguns meses após a morte de Esther, Yochay começa a pensar em se casar novamente e uma candidata que mora na Bélgica lhe é apresentada, deixando sua sogra desesperada em ficar longe do neto. É então que ela tem a ideia de casar os cunhados. Yochay se recusa a princípio, mas acaba se interessando por Shira, que não tem a menor vontade de se casar com ele. Entretanto, depois de não ser aceita pela família do rapaz de quem gosta, Shira reconsidera e começa a pensar na proposta, mesmo não tendo sentimentos por Yochay e se sentindo desconfortável com toda a situação criada pela mãe. O dilema de Shira norteia toda a película. Ela se sente culpada por não gostar de Yochay o bastante para casar e por ele ir embora para a Bélgica, caso não aceite o acontecimento. Desse modo, é apresentada uma falsa liberdade de escolha, pois todos dizem que cabe a ela decidir sobre seu casamento ao mesmo tempo em que a pressionam de maneira indireta, principalmente sua mãe.

A circunstância apresentada a Shira e Yochay lembra a Lei do Levirato (ordenada em Deuteronômio 25:5-6 na Bíblia hebraica) só que ao revés, já que a mesma obriga um homem a casar-se com a viúva de seu irmão quando esta não deixar descendência masculina, mas não o contrário – uma mulher casar-se com o viúvo da irmã para dar-lhe um descendente. Felizmente, nasceu um herdeiro do casamento de sua irmã Esther com seu cunhado, embora o levirato não pudesse ser aplicado à Shira.


Em seu primeiro longa-metragem dirigido em Israel, a judia ultra-ortodoxa Rama Burshtein nos proporciona um mergulho fascinante na cultura judaica, concentrando-se em seus rituais e tradições ditos machistas. A diretora se inspirou num encontro que teve com uma jovem que ficou noiva do antigo cunhado para criar o filme, por isso parece tão realista.

Preenchendo o Vazio mostra a condição das mulheres judias na sociedade ultra-ortodoxa e a angústia de uma jovem diante de uma difícil escolha, que não chega a ser uma “escolha de Sofia”, mas que mudará sua vida para sempre e por completo. É interessante conhecer as regras internas de uma família judaica, acompanhar a sua vida diária e perceber como cada personagem tenta preencher o vazio que foi deixado pelo falecimento de Esther e suas consequências. Apesar de perder um pouco o ritmo durante o longo dilema de Shira, a trama não perde a sua relevância cultural e continua envolvente, despertando no espectador a curiosidade para o desfecho – que se mostra óbvio, mesmo que esteticamente belo.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Preenchendo o Vazio (Lemale et ha'halal)

Israel - 2012. 94 minutos.

Direção: Rama Burshtein

Com: Hadas Yaron, Yiftach Klein, Ido Samuel, Irit Sheleg, Renana Raz e Chayim Sharir.


Nota: 3

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