terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Somos o Que Somos

O cenário mais comum para filmes americanos de terror é o interior dos Estados Unidos. É nas cidades mais pacatas, onde toda a pequena população se conhece, que se escondem as mais estranhas, para não dizer bizarras, figuras e os mais obscuros segredos. O ostracismo desses personagens sempre acaba gerando a curiosidade dos moradores da cidade, e claro, das novas pessoas da vizinhança; até que são finalmente descobertos. As histórias são as mais variadas: vampiros e outras criaturas sobrenaturais, assassinos loucos e inveterados, serial killers que surgem de uma hora para outra, psicopatas, pessoas que lidam com magia negra, entre outras. O tipo, digamos, mais excêntrico, e talvez mais polêmico, é o canibal, por se tratar de algo inconcebível ao senso comum; e é justamente este o tema retratado, de forma surpreendente, no longa de Jim Mickle.

Em Somos o Que Somos, uma incessante chuva torrencial inunda a pequena cidade onde vive a família Parker, que tem seus segredos ancestrais ameaçados, pela primeira vez, por uma investigação policial. Com a morte repentina da mãe, Rose e Iris são forçadas pelo severo pai a dar continuidade nas tradições familiares, custe o que custar.


Frank Parker (Bill Sage) é um homem autoritário que acaba de perder a esposa, mas que mantém seu rigor e agressividade. Apesar de ser o patriarca da família, Frank incumbe a suas filhas Rose (Julia Garner) e Iris (Ambyr Childers) os cuidados do irmão mais novo Rory (Jack Gore) e a obrigação de seguir com os costumes carnívoros da família. Desde 1782, os Parker começaram com a tradição do Dia do Cordeiro, que consiste em todo um ritual de assassinato, corte, cozimento à la Sweeney Todd (Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet/Tim Burton, 2007) e ingestão de carne humana, conduzido pela mulher mais velha da família.

Apesar de ser um remake do filme de terror mexicano de mesmo nome (originalmente Somos Lo Que Hay, 2010), Jim Mickle e o co-roteirista Nick Damici – com quem já trabalhou anteriormente em Stake Land - Anoitecer Violento, 2010 e Infecção em Nova York, 2006 – quiseram fazer de We Are What We Are (no original) uma versão única, mantendo apenas a mesma premissa do canibalismo familiar. Neste, há um inversão de sexos, com as mulheres sendo as filhas mais velhas e responsáveis por dar continuidade ao costume, o irmão caçula sendo alheio a toda a bizarrice que ocorre naquela família (ao contrário da irmã mais nova da versão mexicana, que participa ativamente de tudo), a mãe sofrendo um ataque e vindo a óbito, ao contrário do mexicano, e uma nova trama secundária, envolvendo o médico legista da cidade e um breve flerte entre a filha mais velha e um antigo colega de escola, que agora é subdelegado. Além disso, há a relação entre o canibalismo e a religião, mostrando Frank invocando o nome de Deus para justificar seus atos grotescos. É a boa e velha dicotomia moral entre o bem e o mal, o certo e o errado sendo posta em discussão no cinema, através dos papeis do pai e das duas irmãs, interpretadas por Julia Garner e Ambyr Childers, que roubaram a cena com suas excelentes atuações durante todo o filme.


Jim Mickle traz ao espectador não apenas um simples filme de terror, mas um material de qualidade, capaz de levantar importantes assuntos, com uma fotografia incrível, um clima gótico fascinante, uma tensão sombria e um final arrebatador. É muito difícil um remake ser superior à obra original, mas Somos o Que Somos conseguiu realizar essa proeza e ainda servir como um complemente ao seu filme-inspiração, que dá a sensação de estar inconcluso. O fechamento com chave de ouro se dá pela música “It Was Me That Made Her Bad”, do cantor country Tommy Strange, que explica, em seus poucos mais de dois minutos, toda a essência do filme.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Somos o Que Somos (We Are What We Are)

EUA - 2013. 105 minutos.

Direção: Jim Mickle

Com: Bill Sage, Ambyr Childers, Julia Garner, Michael Parks, Wyatt Russell, Kelly McGillis, Nick Damici e Jack Gore.


Nota: 4

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