domingo, 1 de dezembro de 2013

Trem Noturno para Lisboa

Quem nunca teve vontade de largar tudo por um sonho? Muitas pessoas, provavelmente. Mas quem teria coragem de largar tudo, de uma hora para outra, por um impulso causado por um fato bastante inesperado? É deste ponto que parte Trem Noturno Para Lisboa, filme baseado no livro homônimo de Pascal Mercier, pseudônimo do romancista e professor de filosofia suíço Peter Bieri.

Raimund Gregorius é um pacato professor suíço que abandona sua vida após encontrar um livro do escritor português Amadeu d'Almeida Prado no bolso do casaco de uma mulher que acabara de salvar de um suicídio. Ele fica fascinado com o que começa a ler e resolve viajar para Lisboa em busca de respostas e de autoconhecimento.


Quando Raimund deixou Berna (cidade natal do autor do livro homônimo) rumo à Lisboa, não fazia ideia de que o livro intitulado “Um ourives das palavras” iria afetar tanto a sua vida. Ele se identifica com cada questionamento e inquietação da alma de Amadeu Prado a ponto de querer saber quem foi este homem e descobrir todos os mistérios que envolveram a sua existência. A leitura do livro desperta em Raimund uma nova vontade de viver, provocando uma revisão de seu passado e uma comparação à vida de Amadeu Prado, que considera deveras interessante. Nesta questão, o personagem interpretado por Jeremy Irons se assemelha ao de personagem Walter Vale, interpretado por Richard Jenkins no filme O Visitante (Thomas McCarthy, 2007). Ao contrário de Raimund, a viagem de Walter foi planejada, porém tudo o que encontrou e ocorreu em seu local de destino foi imprevisível, mudando completamente a sua vida.

O longa do cineasta dinamarquês Bille August (que repete a parceria que teve com Jeremy Irons em A Casa dos Espíritos, 1993) reúne atores ingleses, portugueses, alemães e franceses. O que poderia ser um fator positivo acaba fazendo com que a história perca um pouco a identidade, pois nem nas cenas de flashback que ocorrem em Lisboa os atores falam a língua local, e sim o inglês, cada um com um sotaque diferente advindo da mistura de nacionalidades. Infelizmente, esta prática já se tornou um hábito, principalmente em produções de Hollywood, já que público americano não gosta de assistir a filmes com legendas. Outra questão que salta aos olhos é que Raimund não falava ou entendia uma palavra sequer de português, mas leu um livro inteiro nesta língua.


Não somente nesses assuntos o roteiro de Greg Latter e Ulrich Herrmann deixa a desejar. Como a trama transita intercaladamente pelos tempos atuais com Raimund e pelo passado de Amadeu Prado (Jack Huston), contado por diferentes visões de quem o conheceu, o vai-e-vem entre os períodos causa oscilação no ritmo da película e deixa o espectador confuso quanto à verdadeira história de Prado. Além disso, não há aprofundamento em nenhum tema proposto pela busca do ingênuo personagem Raimund, desde romance até a revolução causada pela Resistência. Por outro lado, Trem Noturno Para Lisboa é uma boa oportunidade para reflexão em relação às escolhas da vida e suas consequências, e este não é o primeiro filme do tipo em que Jeremy Irons atua. Em As Palavras (Brian Klugman e Lee Sternthal, 2012), Rory Jasen, vivido por Bradley Cooper, se vê no mesmo lugar que Raimund: encontra folhas antigas formando um livro inteiro numa pasta que encontrou; por um acaso do destino, o dono daquelas páginas – que vem a ser Irons – vai procurá-lo para lhe contar toda a história por trás delas. Eis que ele também se identifica profundamente com as palavras contidas naquelas folhas, as publica como se fossem suas e sua vida nunca mais é a mesma.

Apesar de Night Train to Lisbon (no original) ter seus problemas, principalmente técnicos, não deixa de ser um bom filme. A história é envolvente e desperta curiosidade. Se não fosse o modo pouco emocionante com que Bille August conduz as cenas, ele poderia ser uma grande obra, assim como é o livro em que foi inspirado.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Trem Noturno Para Lisboa (Night Train to Lisbon)

Suíça / Portugal / Alemanha - 2013. 111 minutos.

Direção: Bille August

Com: Jeremy Irons, Bruno Ganz, Lena Olin, Tom Courtenay, Charlotte Rampling, Christopher Lee, Burghart Klaußner, Jack Huston, Adriano Luz, Marco D'Almeida, Beatriz Batarda, Mélanie Laurent e Martina Gedeck.


Nota: 3

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