domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma Noite de Crime

Estamos em 2022, um ano não muito distante do atual – e é isso o que mais assusta. O índice de criminalidade nos Estados Unidos é mínimo, o menor já registrado. A taxa de desemprego é de apenas 1%, muito diferente da presente situação da falta de emprego que assola o país. O que parece até um milagre é, na verdade, um novo plano do governo vigente em 2022, que inclui uma noite de violência sem medidas e sem punição, que parece estar cada vez mais fora de controle, já que a intensidade do ato nas 12 horas anuais permitidas registra um número maior de mortes e feridos a cada ano. Na noite do Expurgo, como é chamada, é permitido cometer qualquer tipo de crime sem consequências legais, com limitação de armas até o nível 4 (que não é explicada no filme, apenas citada), porém oficiais do Governo de classe 10 (que também não há explicação) não participam do “evento”, com imunidade total a ataques violentos. Interessante, não?

É neste cenário que surge a família Sandin, cujo patriarca enriqueceu vendendo sistemas de segurança para os vizinhos do condomínio onde vivem, provocando a inveja velada dos mesmos. No dia antes de começar o Expurgo, todos se cumprimentam e se despedem com “tenha uma noite segura”, e isso é a última coisa que os Sandin’s terão nas próximas 12 horas, graças ao caçula Charlie, que permitiu que um homem ferido entrasse em sua casa, provocando a ira de jovens que o estavam utilizando para expurgar naquela noite. Liderados por um rapaz educado e bem apessoado, o grupo ameaçou invadir a casa e descontar toda a sua raiva em toda a família caso não lhes fosse entregue o homem ferido para que pudessem continuar com seu divertimento assassino. O líder dos jovens, interpretado por Rhys Wakefield (de Santuário), lembra o psicopata Paul (Michael Pitt) na versão americana de Violência Gratuita (Michael Haneke, 2007), tanto na aparência, no modo de falar e pensar quanto na execução de um violento e sádico jogo envolvendo uma família inocente. O próprio nome original da obra de Haneke, Funny Games US, reforça esta ideia. Aliás, em se termos de nome, o título original The Purge se mostra mais adequado que Uma Noite de Crime, visto que todo ato violento praticado no dia do Expurgo não é considerado crime pela lei, e sim um ato de expurgo (purge, em inglês).


 “Abençoados sejam os novos fundadores por nos deixarem expurgar e purificar nossas almas. Abençoada seja a América, uma nação renascida. Que Deus esteja com vocês”. Sob este cínico e descabido discurso, os cidadãos (?) americanos colocam toda sua violência contida para fora e deixam cair suas máscaras sociais, utilizadas nos outros de 364 dias do ano, em Uma Noite de Crime. O filme é uma clara crítica ao reverenciado american way of life, suas consequências e seus possíveis efeitos futuros. Logo no início da trama, há uma discussão em segundo plano no rádio e na televisão sobre o Expurgo ser uma limpeza social, já que os mais prejudicados financeiramente, os doentes e os incapazes fisicamente – que não são contribuintes do governo – não podem pagar por uma segurança eficaz e acabam sendo mortos no fatídico dia. Assim, o Expurgo melhorou a economia americana e aumentou a venda de armas e sistemas de segurança. Enquanto isso, um outro lado afirma que o Expurgo é positivo pelo diminuição do índice de violência e porque permite às pessoas se libertarem de toda soma de sentimentos negativos acumulados durante um ano inteiro. E tudo isso em nome de Deus, como se fosse uma purificação da alma, o que levanta a polêmica da cegueira e justificativa religiosa, como em Somos o Que Somos (Jim Mickle, 2013), através do canibal Frank Parker (Bill Sage), e em O Código Da Vinci (Ron Howard, 2006), através da figura do devoto Silas (Paul Bettany).

O personagem Charlie (Max Burkholder), que causa toda a reviravolta no enredo, fomenta uma divisão moral no espectador: o menino está certo ou está errado em ajudar um desconhecido no meio de um dia tão sangrento, sabendo que se não ajudasse ele morreria, mesmo colocando em risco toda a sua família? James Sandin, interpretado pelo competente Ethan Hawke (da trilogia romântica de Richard Linklater e O Senhor das Armas, 2005) na segunda parceria com James DeMonaco, agiu corretamente ao fazer a sua escolha sobre entregar ou não o desconhecido aos jovens, arriscando a sua sobrevivência e de sua família? Esta dicotomia de princípios permeia toda a trama e nos faz refletir, e muito, sobre a estrutura da sociedade, não só americana como também mundial.


À frente de seu segundo longa como roteirista e diretor, James DeMonaco constrói uma trama extremamente tensa, repleta de terror psicológico – principalmente quando o grupo de jovens ainda não entrou na casa e fica do lado de fora com suas máscaras macabramente sorridentes, saltitando e simulando tiros e golpes com faca –, e pouco exagero na violência física, como é comum na maioria dos filmes de terror. O que se deseja mesmo na noite do Expurgo é saciar a vontade de matar, então não há muita tortura física – é apenas a violência pela violência, cega e desmesurada.

DeMonaco escolheu dar foco à casa de uma família, criando uma história em torno dela, e não a todas as situações que ocorrem nas ruas durante as 12 horas mais longas do ano. O filme é introduzido com imagens de câmeras de rua mostrando ataques violentos durante o Expurgo em diferentes anos, desde o primeiro em 2017. Na continuação de Uma Noite de Crime, que já está em fase de pré-produção devido ao grande sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, será muito mais interessante que seja apresentada esta parte que foi desvalorizada em seu predecessor para que possam ser levantadas discussões ainda mais ricas sobre assuntos tão atuais e que afetam o mundo todo.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Uma Noite de Crime (The Purge)

EUA - 2013. 85 minutos.

Direção: James DeMonaco

Com: Ethan Hawke, Lena Headey, Max Burkholder, Adelaide Kane, Edwin Hodge, Rhys Wakefield, Tony Oller, Arija Bareikis, Dana Bunch, Chris Mulkey e Tom Yi.

Nota: 4

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...