sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Attila Marcel

Conhecido pelas excelentes animações “A Velha Senhora e os Pombos”, “As Bicicletas de Belleville” (que concorreu ao Oscar de Melhor Animação e Melhor Canção Original em 2004) e “O Mágico”, o cineasta francês Sylvain Chomet teve seu primeiro contato com o live action ao dirigir o segmento lúdico “Tour Eiffel” no filme “Paris, Te Amo”. Com o mesmo título de uma música que faz parte da trilha sonora de “As Bicicletas de Belleville”, seu trabalho mais famoso, “Attila Marcel” marca definitivamente – e com louvor – a entrada de Chomet no mundo dos longas-metragens em live action.


O roteiro, também assinado pelo diretor, gira em torno do protagonista Paul (o ótimo Guillaume Gouix, de “Copacabana” e “Aliyah”), um homem de 35 anos com espírito de criança, que não fala desde os dois anos, quando viu seus pais morrerem, e não se lembra dos momentos que passou ao lado deles devido ao trauma. Reprimido pelas tias (Hélène Vincent e Bernadette Lafont, em seu último filme), Paul vive uma rotina sufocante que consiste basicamente em tocar piano em casa e nas aulas de dança de suas tias. Até o dia em que seu caminho se cruza com o de uma extravagante vizinha, madame Proust (Anne Le Ny), que o ajuda a recuperar a memória aos poucos em curiosas sessões baseadas em música, chás alucinógenos e madeleines. É assim que Paul inicia um processo de libertação de sua alma, aprisionada no sonho das tias de torná-lo um pianista famoso.


Se os olhos são a janela da alma, madame Proust conseguiu enxergar a de Paul através de seus olhos tristes, que Guillaume Gouix, sem dizer uma palavra, fez com que se expressassem melhor do que qualquer fala, numa atuação sensível e maravilhosa. Como nos longas anteriores de Chomet, em “Attila Marcel” o humor infantil e irônico se faz presente, do mesmo modo que a trilha sonora marcante, a figura de senhoras idosas e as falas limitadas do personagem principal, mostrando enorme semelhança em vários pontos com “As Bicicletas de Belleville”. É na simplicidade da história de Paul, enriquecida pela atmosfera lúdica à la Jean-Pierre Jeunet (em especial “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”), que reside a beleza de “Attila Marcel”. Da mesma maneira que Jeunet encanta com seus enredos fantásticos repletos de sutileza, delicadeza e particularidades, envoltos numa belíssima e característica fotografia, Chomet conseguiu realizar uma grande proeza ao se aproximar do mestre do gênero, atingindo em cheio o coração do espectador com seu mais recente filme, que transborda amor, doçura e faz você sair mais leve na sala de cinema.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Attila Marcel (Idem)

França - 2013. 106 minutos.

Direção: Sylvain Chomet

Com: Guillaume Gouix, Anne Le Ny, Bernadette Lafont e Hélène Vincent.


Nota: 4

sábado, 1 de novembro de 2014

Os Boxtrolls

Imagine uma cidade cuja estratificação social fosse baseada pelas cores dos chapéus de seus habitantes e que estes fossem obcecados por elegância e queijo, a ponto de todas as ruas terem nomes de laticínios. Agora imagine que abaixo desta cidade vivem pequenas criaturas vestidas com caixas de papelão, que roubam lixo durante a noite para incrementarem suas invenções, tidas por todos os cidadãos como monstros ladrões de crianças e queijos. Está cidade é Pontequeijo, da nova animação do Estúdio Laika (“Coraline” e “ParaNorman”), “Os Boxtrolls”, inspirada no livro de Alan Snow, "A Gente é Monstro!" ("Here Be Monsters").


O homem mais poderoso da cidade, o Sr. Roquefort (mais uma referência queijística), é também o seu líder e preside as reuniões de degustação de queijo restrita aos quatro privilegiados que trajam chapéu branco, expoente máximo de poder de Pontequeijo que desperta uma inveja venenosa em Arquibaldo Surrupião, exterminador de pestes que usa um chamativo chapéu vermelho. No passado, o vilão viu um bebê ser levado pelos boxtrolls, que foi o estopim da lenda acerca dos inofensivos mini ogros azuis. O que ninguém na cidade sabe é que, na verdade, as criaturinhas criaram o bebê como igual membro de sua sociedade subterrânea e o batizaram de Ovo. Quando Ovo é descoberto pela mimada Winnie, filha do Sr. Roquefort, muitas coisas começam a mudar em Pontequeijo, incluindo um aumento no desejo de Surrupião de entrar para o limitadíssimo clã dos chapéus brancos como prêmio pela eliminação de todos os boxtrolls.


À primeira vista, “The Boxtrolls” (no original) pode parecer apenas uma simples animação, mas com o decorrer do filme, é possível perceber a sua complexidade por meio de diversas referências à sociologia, com camadas de crítica social, e a outros longas, que vão desde filmes da Disney como “Tarzan” e “O Rei Leão” a “Ratatouille”, “Meu Malvado Favorito” e “MicMacs - Um Plano Complicado”, de Jean-Pierre Jeunet. Mérito para Irena Brignull (roteirista da nova adaptação de “O Pequeno Príncipe” de Mark Osborne) e Adam Pava (da série animada “A Mansão Foster para Amigos Imaginários”), responsáveis pelo roteiro desta história envolvente, que, em conjunto com a direção de Graham Annable (estreante em longas) e Anthony Stacchi ("O Bicho Vai Pegar") ganhou vida e se transformou num maravilhoso mundo vitoriano e steampunk em stop-motion.


Outro fator interessante presente na trama é a dualidade bem versus mal através de dois ajudantes de Surrupião, que refletem a todo momento se são os mocinhos por capturarem os boxtrolls, se estão do lado certo e se seus atos são realmente corretos. São eles também que transmitem uma reclamação de classe dos animadores disfarçada de mera ponderação e breve demonstração dos bastidores da animação após os primeiros créditos. Não saia da sala antes de assistir, pois é genial.


Ao contrário do que acontece em “Meu Malvado Favorito”, em que os minions roubam a cena e se transformam na atração principal do longa, em “Os Boxtrolls”, o destaque fica para a trama envolvendo Ovo, e não para os pequenos personagens-título. Além disso, a tentativa de fazer frente ao sucesso dos minions com personagens, em alguns pontos, similares não foi tão bem sucedida, pois os amarelinhos são mais fofos, simpáticos e carismáticos que os pequeninos ogros azuis. Apesar disso, os boxtrolls não deixam de ser personagens criativos, já que usam caixas como um casco de tartaruga para se proteger e possuem nomes com base na imagem ou palavra impressa em suas respectivas caixas, algo inédito no cinema. Assim, o resultado final é bastante positivo. “Os Boxtrolls” é uma animação divertida, cativante e inteligente, dona de um visual incrível, repleto de detalhes e cores vibrantes, que só o stop-motion pode proporcionar. Uma agradável surpresa em meio ao atual cenário com tantos remakes e animações sem profundidade. Vida longa ao Estúdio Laika!

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Os Boxtrolls (The Boxtrolls)

EUA - 2014. 122 minutos.

Direção: Anthony Stacchi e Graham Annable

Com: Ben Kingsley, Isaac Hempstead-Wright, Elle Fanning, Jared Harris, Toni Collette, Nick Frost, Richard Ayoade, Tracy Morgan e Simon Pegg.


Nota: 4

sábado, 18 de outubro de 2014

Será Que?

Daniel Radcliffe vem tentando provar que seu talento como ator vai muito além de Harry Potter desde o fim da saga. A partir de então, vem aceitando papéis bem diferentes do jovem bruxo: já protagonizou o terror “A Mulher de Preto”, a série “Diário de um Jovem Médico”, interpretou o poeta Allen Ginsberg em “Versos de um Crime”, e em breve será um chifrudo peculiar no longa “O Pacto”. No atual “Será Que?”, dirigido pelo canadense Michael Dowse (“Os Brutamontes” e “Uma Noite Mais Que Louca”), Radcliffe se joga pela primeira vez no mundo das comédias românticas, fazendo par com a atriz Zoe Kazan, que já teve essa experiência anteriormente em “Ruby Sparks – A Namorada Perfeita” (2012) e “Tudo Acontece em Nova York” (2011).


Em “What If” (no original), Wallace (Radcliffe) e Chantry (Kazan) são dois jovens na faixa dos 20 anos que se conhecem por acaso numa festa e sentem uma sintonia instantânea. O grande problema é que ela já está comprometida com Ben (Rafe Spall) e não pretende terminar o namoro. Ele, que depois de 1 ano na fossa após o término de um relacionamento, finalmente resolve dar a volta por cima, acaba na friendzone de Chantry, reprimindo seus sentimentos para continuar perto dela, mesmo que seja apenas como amigo.


Zoe Kazan rouba a cena como Chantry, enquanto o desempenho de Daniel Radcliffe alterna entre bom e mediano durante toda a trama. Quem também merece destaque é o casal amigo, interpretado por Adam Driver, da série “Girls”, e Mackenzie Davis (“Namoro ou Liberdade?”), que compõem um improvável, divertido e fogoso par contrastando com o romance enrustido dos amigos que parece nunca deslanchar por insegurança e indecisão de ambos.


Com um roteiro previsível de Elan Mastai, “Será Que?” é uma comédia romântica que funciona por investir num casal protagonista fofo e carismático que se descobre aos poucos ao longo da trama, pelo qual o público (especialmente o feminino) adora torcer. A relação entre os dois é muito descontraída, repletas de piadas prontas e ironias constantes (algumas vezes forçadas), e é possível perceber de cara a química entre eles, o que lembra em parte o início do romance de Gus e Hazel no recente “A Culpa é das Estrelas”.


Baseado na peça canadense “Toothpaste and Cigars”, “Será Que?” é mais um representante do gênero e possui similaridades com os conhecidos longas “Harry e Sally” (1989), “Amor ou amizade” (2000), “O melhor amigo da noiva” (2008) e "(500) Dias Com Ela" (2009). Não é um filme original, mas cumpre muito bem o seu papel de entreter sem gerar maiores expectativas.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Será Que? (What If)

Canadá - 2012. 102 minutos.

Direção: Michael Dowse

Com: Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Adam Driver, Rafe Spall, Mackenzie Davis e Megan Park.


Nota: 3

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Bela e a Fera

Quando Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve escreveu “A Bela e a Fera” em 1940, provavelmente não pensou que sua história se tornaria tão famosa e que ganharia tantas versões – literárias, televisivas, teatrais e cinematográficas – em todo o mundo. No cinema, teve sua primeira representação pelas mãos de Jean Cocteau e René Clément em 1946, mas foi a animação musical da Disney (1991), a primeira a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, que internacionalizou e tornou o conto de fadas francês um clássico inesquecível. De volta às origens, o mais recente remake homônimo de “A Bela e a Fera” estreia este mês nos cinemas brasileiros num projeto ambicioso do diretor Christophe Gans (“O Pacto dos Lobos”) com muita magia, efeitos especiais e aventura.


Numa mistura da versão de Cocteau com a da Disney, “La Belle et la Bête” (no original) se passa no ano de 1810. Um comerciante (André Dussollier), pai de três filhos e três filhas, perde toda a fortuna num naufrágio que destrói suas três embarcações e se muda para o campo a fim de evitar a humilhação. Somente a caçula Bela (Léa Seydoux) aprecia a mudança de ares, e a inquietação toma conta de seus irmãos. Quando seu pai arranca uma rosa do jardim de um palácio misterioso, a Fera (Vincent Cassel) surge e o condena à morte pelo roubo em sua propriedade. Bela, se sentindo culpada pelo que aconteceu, vai até o castelo para salvar a vida do pai e passa a viver lá com a Fera, com quem é obrigada a jantar diariamente. Aos poucos, ela descobre o passado do monstro e começa a se envolver com ele, que vê na moça uma grande possibilidade de romper a sua maldição.


Com uma fotografia belíssima de cores vibrantes, ótimos efeitos especiais na maior parte do tempo e figurinos luxuosos impecáveis, “A Bela e a Fera” é o tipo de produção que se vê muito pouco na França, não só pelo alto orçamento exigido como por ser bastante hollywoodiano. Apesar de Gans negar influência de produções americanas do gênero, seu longa não deixa nada a desejar em relação às mesmas, como “Branca de Neve e o Caçador” e “A Garota da Capa Vermelha”, e, sim, possui semelhanças, principalmente no que se refere ao excesso na utilização de efeitos especiais, que soam artificiais em cenas específicas. Não vemos em momento algum da narrativa a influência de seu ídolo, Hayao Miyazaki, que Gans afirma haver.


“A Bela e a Fera” de Gans mescla romance fantástico, aventura e mitologia num filme francês bastante americano, algo raro no cinema do país de Napoleão, e acaba deixando o espectador perdido quanto ao gênero de filme a que está assistindo. Se as sequências que mostram o passado de Fera como príncipe através dos sonhos de Bela são de grande beleza e com efeitos interessantes, elas também apresentam elementos mitológicos que parecem perdidos em meio a toda a trama, ao mesmo tempo em que há uma boa reconstituição de época. Além disso, é muito pouca a interação de Bela com as criaturinhas que ela diz serem suas melhores amigas no castelo e o romance com Fera fica em segundo plano no roteiro de Gans, que deseja mostrar o quanto sua película é visualmente suntuosa em detrimento da coerência da história. Talvez este seja um dos motivos pelos quais os atores não parecem confortáveis em seus papéis e sua atuação não tenha nem metade do brilho empregado em seus figurinos e cenários.


Altos e baixos compõem “A Bela e a Fera” de Gans, o que faz dele um filme mediano. Devido à combinação inusitada de temas, é difícil afirmar que se destina totalmente ao público infantil, que poderá se sentir confuso e entediado em diversos momentos onde há diálogos mais longos que o necessário e visível perda de ritmo e de sentido na história. Aliás, o mesmo pode ocorrer com os adultos. A combinação de elementos do cinema americano com elementos do cinema francês não deu muito certo desta vez. Entretanto, não se pode negar que a iniciativa de Gans em investir num gênero pouco recorrente no cinema francês é louvável, e por isso merece créditos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Bela e a Fera (La Belle et la Bête)

França - 2014. 112 minutos.

Direção: Christophe Gans

Com: Vincent Cassel, Léa Seydoux e André Dussolier.


Nota: 3

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Isolados

Ao mesmo tempo em que aposta em comédias blockbusters para gerar bilheteria certa, o cinema nacional também vive uma fase muito produtiva, investindo em produções de gênero que antes eram quase exclusivas do cinema estrangeiro, principalmente americano. Nos últimos anos, longas de terror e suspense, como “O Lobo Atrás da Porta”, “Gata Velha Ainda Mia”, “Quando Eu Era Vivo” e o mais recente “Confia em Mim”, têm surgido com frequência nessa fase de renovação do nosso cinema e têm ganhado cada vez mais espaço entre o público. Depois de dirigir um filme de comédia (“Qualquer Gato Vira-Lata”), Tomas Portella se arrisca nesta tendência em seu segundo longa-metragem e nos apresenta “Isolados”. Nele, o psiquiatra residente Lauro (Bruno Gagliasso) e sua namorada Renata (Regiane Alves) vão passar um tempo numa casa isolada na Região Serrana do Rio de Janeiro, numa área onde há sucessivos ataques violentos a mulheres, fato que ele esconde de Renata alegando ser por ela ser muito sensível e impressionável. Quando sente o perigo se aproximando, Lauro decide proibi-la de sair de casa, e é aí que começa a agonia do casal durante o seu isolamento.


Assumidamente inspirado em conhecidos filmes do gênero, como “Sexto Sentido”, “O Iluminado” e “A Ilha do Medo”, “Isolados” é um aglomerado de clichês, que vão desde objetos de cena, como bonecas macabras e pinturas bizarras, e trilha sonora mais do que característica até a iluminação utilizada em certas sequências e a ocorrência de situações improváveis na vida real (já batidas em suspenses), como manter os planos mesmo depois de saber que a região é perigosa e sua namorada está em recuperação. O roteiro de Mariana Vielmond, também vinda da comédia (“Giovanni Improtta”), possui algumas incongruências e se perde em diversos momentos, em especial ao mostrar três flashbacks sem função para a história, um deles com a participação simbólica de seu pai, José Wilker, como mentor de Lauro. Por outro lado, o desfecho, embora já batido, apresenta uma saída satisfatória para o desenrolar da trama.


Juntam-se ao roteiro frágil de Vielmond e à direção inexperiente de Portella movimentos de câmera desnecessários e atuações medianas, porém convincentes, de todo o elenco. Apesar de Regiane Alves crescer um pouco como Renata ao longo da película, o destaque fica para o protagonista Bruno Gagliasso, que consegue transmitir ao espectador o desespero de seu personagem e a transferência da paranoia de sua namorada para si. No final, “Isolados” acaba sendo apenas mais um thriller psicológico no meio de tantos outros, que deixa aquela velha sensação de conteúdo já visto em outras produções melhor desenvolvidas, mas ainda assim não deixa de ser uma iniciativa muita válida dentro do atual cenário do cinema brasileiro.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Isolados

Brasil - 2014. 90 minutos.

Direção: Tomas Portella

Com: Bruno Gagliasso, Regiane Alves, José Wilker, Juliana Alves, Orã Figueiredo, Sílvio Guindane e Carol Macedo.


Nota: 2

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Oeste do Fim do Mundo

Coprodução entre Brasil e Argentina vencedora do Brafftv – Brazilian Film & TV Festival of Toronto 2013 (Melhor Filme e Melhor Atriz), “A Oeste do Fim do Mundo” é o mais recente filme de Paulo Nascimento, que repete a mesma parceria de “Em Teu Nome” com os três atores principais. Em meio à desértica paisagem andina, encontra-se Leon (César Troncoso), um homem solitário, misterioso e de poucas palavras, dono de um pequeno posto de gasolina, que possui como única intervenção ao seu marasmo algumas ligações monologais de seu filho, a passagem de alguns caminhoneiros e a visita do motoqueiro brasileiro Silas (Nelson Diniz). Até o dia em que surge Ana (Fernanda Moro), uma mulher também brasileira tão enigmática quanto ele a caminho de Santiago, que perdeu seu ônibus e precisa de abrigo por um dia. Ou talvez mais.


Após um primeiro contato hostil, Leon logo se vê envolvido por Ana e ela, por ele. A relação entre os dois é construída lentamente através de sutilezas, olhares, pequenas mudanças de atitude. A comida exerce um importante papel nessa transição, já que de pálida e sem sabor, ganha um novo tempero e uma nova cor, assim como a vida de Ana e Leon. A tagarelice e curiosidade da hóspede antes indesejável faz o traumatizado veterano da Guerra das Malvinas desenterrar o passado e o ajuda a finalmente deixá-lo para trás para começar a mirar o futuro, e o mesmo acontece com Ana. O encontro de duas almas perdidas, cada uma com seu sofrimento incrustado, foi um grande beneficio mútuo, da mesma maneira que no longa francês “Lulu, Nua e Crua”, de Sólveig Anspach.



Com ares mais argentinos que brasileiros, “A Oeste do Fim do Mundo” evidencia a maturidade de Nascimento como diretor e roteirista. Sua película mostra que a busca pelo porto seguro nem sempre é fácil, mas que é possível encontrá-lo onde menos se espera, lembrando ótimas produções argentinas como as recentes “Filha Distante” (Carlos Sorin) e “Las Acacias” (Pablo Giorgelli). A bela fotografia de Alexandre Berra, que não utiliza iluminação especial, em conjunto com a ótima sonorização de Renato Müller, que inclui o constante e forte canto dos ventos do deserto, compõem um cenário perfeito para o enredo de Nascimento, que tem como base o estado de auto-reclusão em que se encontram seus personagens. Um filme que poderia muito bem ser protagonizado por Ricardo Darín, que interpretou um personagem de personalidade similar que passa por uma situação parecida com a de Leon em “Um Conto Chinês” (Sebastián Borensztein).

Envolvente do início ao fim, “A Oeste do Fim do Mundo” é uma história sobre laços – perdidos, renovados e criados. É o destino colocando algo novo no caminho de quem já não esperava nada da vida, e de forma belíssima.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Oeste do Fim do Mundo

Brasil - 2013. 102 minutos.

Direção: Paulo Nascimento

Com: César Troncoso, Fernanda Moro e Nélson Diniz.


Nota: 4

domingo, 21 de setembro de 2014

A Pedra da Paciência

“A Pedra da Paciência”, segunda adaptação cinematográfica feita pelo afegão Atiq Rahimi de um de seus próprios livros (a primeira foi “Terra e Cinzas”, em 2004), é um filme sobre uma mulher (a fantástica iraniana Golshifteh Farahani, de “Frango Com Ameixas”) que conversa com seu marido em coma durante o caos da guerra civil que acontece em seu país. Ele, que dos 10 anos de casamento passou pouquíssimo tempo com a família por fazer parte da guerrilha e nunca foi um marido atencioso quando em casa, não teve opção a não ser “ouvir” todas as confissões, revelações e desabafos que estavam engasgados na garganta de sua esposa há tempos. O homem passa a ser a sua “pedra da paciência” do título, uma pedra ouvinte de uma lenda contada pela tia da protagonista em dado momento da fita.


Em meio à guerra e à miséria, o desespero da mulher se agrava com a solidão de ter que lidar com o marido em coma, abandonado pela família e pelos companheiros do Jihad, que fogem devido aos ataques naquela área em que vivem, quase beirando a loucura. Até sua tia, seu vínculo familiar restante, desaparece sem deixar aviso. É quando ocorre a invasão de seu bairro que ela decide pegar as duas filhas e procurá-la para pedir ajuda. São rápidas as cenas entre tia e sobrinha, mas de uma enorme profundidade. A tia, que é prostituta, tem muito a ensinar à sobrinha e é dona de ótimas frases da película. A tia lhe conta fatos até então por ela desconhecidos e lhe dá conselhos, além de cuidar de suas filhas enquanto ela cuida do marido e o mantém escondido em sua casa completamente vulnerável, estando suscetível a todos os perigos que representa a uma mulher estar sozinha durante uma guerra do Oriente Médio.


“Syngué sabour, pierre de patience” é um longa de poucos personagens e nomes não são proferidos em momento nenhum da trama, pois, num lugar onde a guerra e a miséria imperam, a identidade de seus moradores se perde. Ao longo da trama, a cultura do machismo arraigado vai sendo escancarada ao público através das palavras das principais figuras femininas. O que parece ser chover no molhado e exposição sem necessidade – cuidar de um marido que já está praticamente morto – revela-se um modo de fazer com que a mulher se sinta mais leve, dando espaço a uma repentina e interessante relação com um dos soldados que invade a sua casa. À medida que tal relação vai se desenvolvendo, uma mulher mais corajosa e segura de si vai dando lugar à mulher frágil e insegura do início, e revelações cada vez mais profundas e inesperadas vão sendo feitas ao marido e ao espectador.


Vencedor de três prêmios (na França, Turquia e China), “A Pedra da Paciência” é um filme forte que envolve o público começo ao fim ao despir uma alma feminina reprimida pela religião e pela cultura do Oriente Médio, que ganha força na belíssima interpretação de Golshifteh Farahani. A competente direção de Rahimi, aliada à sua sensibilidade de autor da história, fazem de seu mais recente longa-metragem uma obra marcante, difícil de ficar indiferente.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Pedra da Paciência (Syngué sabour, pierre de patience)

Afeganistão - 2012. 98 minutos.

Direção: Atiq Rahimi

Com: Golshifteh Farahani, Hamid Djavadan, Hassina Burgan e Massi Mrowat.


Nota: 4

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Doador de Memórias

Obras literárias distópicas estão no auge do sucesso entre os adolescentes e os chamados young adults, e suas adaptações para o cinema não ficam atrás. Filmes destinados aos fãs do gênero lotam cada vez mais as grandes salas. Seus atuais e maiores representantes, “Jogos Vorazes” e “Divergente”, que o digam. O que pouca gente sabe é que “O Doador de Memórias”, best-seller da autora Lois Lowry ganhador do Newbery Medals de 1994 e primeiro de uma série de quatro livros, foi uma das pioneiras distopias adolescentes, em 1993, a surgirem muito antes da moda. Pelo fato de ter permanecido pouco conhecido até então, sua adaptação em longa-metragem, com Vadim Perelman no roteiro (roteirista e diretor de "Casa de Areia e Névoa") e Phillip Noyce como diretor (“O Colecionador de Ossos” e “Salt”), pode soar como mais do mesmo ao público já acostumado com produções de mesma natureza, quando, na verdade, deveria ser o oposto.


O cenário futurista de “The Giver” (no original) que inicialmente parece utópico, onde todos os felizes moradores vivem em plena harmonia na comunidade ideal, logo dá lugar a um panorama distópico em que os habitantes são marionetes “robotizadas” e oprimidas por seus governantes, que apagaram suas memórias e as deixaram a cargo de apenas uma pessoa – o Receptor. Jonas (Brenton Twaites) é o escolhido da vez e precisa passar por um penoso treinamento com o Doador (Jeff Bridges) antes de ocupar definitivamente o cargo. O que Jonas não esperava é que entender o passado e passar a ter emoções antes desconhecidas fosse lhe trazer tanto sofrimento, não só por não poder compartilhar com mais ninguém seus aprendizados, como também por serem tão pesados. Numa escolha bastante acertada, o espectador enxerga com os olhos do protagonista durante boa parte da película, podendo observar e sentir a transição do preto e branco para o mundo real feito de cores, do cruzamento da fronteira da ignorância para a clara e completa consciência.


Enquanto o longa possui uma premissa relevante e repleta de camadas políticas, o desenvolvimento de sua trama não alcança o mesmo feito. O enredo carece de aprofundamento e a resolução se dá de maneira muito rápida – problemas que poderiam ser resolvidos com mais alguns minutos de fita. O desfecho, apesar de clichê e um pouco piegas, transmite uma mensagem positiva de esperança e de luta por ideias, do jeito que o público gosta. Qualquer semelhança com “Jogos Vorazes”, “Divergente”, “Harry Potter”, e até “A Viagem” e “Mulheres Perfeitas” não é mera coincidência. Com destaque para a atuação dos veteranos Meryl Streep e Jeff Bridges, que acabam ofuscando o casal novato Brenton Twaites e Odeya Rush, além da cantora Taylor Swift numa participação descartável, “O Doador de Memórias” é um filme envolvente que chama atenção por sua proposta, mas que ainda assim tem suas falhas e poderia ser muito mais.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Doador de Memórias (The Giver)

EUA - 2014. 97 minutos.

Direção: Phillip Noyce

Com: Brenton Twaites, Jeff Bridges, Meryl Streep, Alexander Skarsgård, Katie Holmes, Odeya Rush e Cameron Monaghan.


Nota: 3

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Se Eu Ficar

Chloë Grace Moretz, uma das atuais queridinhas teen de Hollywood, após estrelar o remake do clássico do terror “Carrie - A Estranha”, é a protagonista do drama “Se Eu Ficar”, baseado no best-seller homônimo de Gayle Forman. No longa, dirigido por R.J. Cutler (da série "Nashville"), Chloë é Mia, uma menina de 17 anos em coma que precisa decidir se quer ou não acordar depois de sofrer um grave acidente com os pais e o irmão. 



If I Stay” (no original) é aquela típica história americana sobre o primeiro amor adolescente no estilo ‘os opostos se atraem’ que enfrenta constantes problemas para se manter, e também envolve os temas já batidos música e família em seu enredo. Mia e Adam (Jamie Blackley) são músicos – ela toca violoncelo e ele é guitarrista de uma banda de rock em início de carreira. Ela é tímida e deslocada, ele é popular e extrovertido. Ela tem uma família unida e descolada, ele não tem mais família. Tudo parece se encaixar perfeitamente até que os desentendimentos começam a surgir para atrapalhar a relação. Mesmo depois da quase-morte de Mia, o amor entre Adam e ela permanece forte, e é o maior incentivo para que ela continue viva, embora a dúvida persista durante quase toda a trama. Mia coloca na balança a perda da família de um lado e o amor que sente por Adam e pela música do outro. Dada a previsibilidade do roteiro de Shauna Cross (“Garota Fantástica” e “O Que Esperar Quando Você Está Esperando”), não é necessário pensar muito para se descobrir qual deles terá o maior peso na decisão final da apaixonada violoncelista. A motivação da protagonista para acordar do coma em “Se Eu Ficar” é semelhante à da comédia romântica “E Se Fosse Verdade”, de Mark Waters, em que a alma da personagem de Reese Whiterspoon em coma se apaixona pelo personagem de Mark Ruffalo, que é quem, de fato, impede que ela morra por amá-la. Porém fica só aí a semelhança.


Como casal, Mia e Adam não são nem de longe tão cativantes quanto Hazel (Shailene Woodley) e Gus (Ansel Elgort) o são em “A Culpa é das Estrelas”, outro filme deste ano que gira em torno de um amor adolescente que passa por adversidades relacionadas à saúde. Apesar disso, Chloë e Jamie convencem em seus respectivos papéis e utilizam alguns clichês para fazer o público rir e chorar. Quem rouba a cena são os pais de mia, Denny (Joshua Leonard) e Kat (Mireille Enos), que deixaram a vida de roqueiros inconsequentes para cuidar dos filhos, mas nunca permitiram que o rock deixasse suas vidas. São deles as melhores tiradas de humor e instantes de reflexão do filme. Os flashbacks são o ponto alto da película, já que neles residem a trajetória do romance e os divertidos e emocionantes momentos em família, enquanto o presente, que se passa quase que inteiramente no hospital pós-acidente, é bastante melodramático. O excesso de clichês, misturado àquela sensação de já termos visto boa parte daquelas cenas em outras produções, faz o longa cair na armadilha da trivialidade. Ainda assim, “Se Eu Ficar” possui seus atrativos, especialmente ao público ao qual se destina.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Se Eu Ficar (If I Stay)

EUA - 2014. 106 minutos.

Direção: R.J. Cutler

Com: Chloë Grace Moretz, Jamie Blackley, Mireille Enos, Joshua Leonard, Liana Liberato, Aliyah O'Brien e Jakob Davies.

Nota: 3

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobrevivi ao Holocausto

O Holocausto é um assunto bastante recorrente tanto na literatura quanto no cinema. Por se tratar de uma das maiores tragédias da humanidade, com consequências visíveis e também veladas até hoje, as histórias relacionadas ao Holocausto continuam a se destacar e a emocionar um grande número de pessoas. Cinematograficamente, o tema sobressai-se mais na forma de documentário devido à maior veracidade que carrega, apesar de não ser a mais popular entre o grande público, que digere melhor a ficção. Aproveitando-se do fato de que o Brasil foi um país acolhedor de muitos imigrantes judeus na época que fizeram daqui seu lar permanente, Marcio Pitliuk, escritor (autor de “O homem que venceu Hitler”), cineasta, estudioso e divulgador do Holocausto, escreveu o roteiro do documentário “Sobrevivi ao Holocausto”, dividindo a direção com Caio Cobra (“Crônicas de um Assassino”).


Após os longas “Marcha da Vida” (2011), “100 anos de imigração judaica do leste europeu” (2011) e ”200 anos de imigração judaica do Mediterrâneo” (2013), Pitliuk lançou este ano no 18º Festival de Cinema Judaico de São Paulo seu filme que conta como Julio Gartner, um judeu polonês, conseguiu sobreviver ao pesadelo do Holocausto entre 1939 e 1945. Acompanhado por Marina Kagan, amiga de sua neta que possui a mesma idade que ele quando foi preso num campo de concentração, Gartner viaja para todos os lugares que fizeram parte de seu doloroso passado até conseguir chegar ao Brasil.


Entre historiadores, professores, pesquisadores, curadores de museus e rabinos, cada um dá uma contribuição para enriquecer a história contada por Gatner ao longo do filme. Uma pequena aula de história, principalmente para as novas gerações, que estão tão distantes do tema. Marina, apesar de ser somente uma figurante na trama, é judia e dialoga com esta parcela mais jovem que, assim como ela, não conhecia boa parte da história de seus antecedentes.


Provavelmente para deixar o espectador mais chocado e emocionado com algumas cenas fortes, a trilha sonora de Paulo Garfunkel alterna entre silêncio e sons pontuais com tom ora de suspense, ora de melancolia. Talvez resida aí o maior erro do documentário, já que não era necessário aumentar ainda mais a carga dramática de um assunto tão pesado. Entretanto, “Sobrevivi ao Holocausto” não perde em momento nenhum o seu mérito, pois a história de alguém que sobreviveu em meio ao assassinato de seis milhões de judeus merece ser contada. Julio Gartner, além de compartilhar com o público seus relatos, também transmite o que aprendeu com o seu passado traumático e a como conviver com ele. Não saia nos créditos, pois são um complemento ao filme.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Sobrevivi ao Holocausto

Brasil - 2014. 90 minutos.

Direção: Caio Cobra e Marcio Pitliuk

Com: Julio Gartner e Marina Kagan.


Nota: 4

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Estudante

Conhecido pelo roteiro de filmes como “Leonera”, “Abutres” e “Elefante Branco”, de Pablo Trapero, o argentino Santiago Mitre fica à frente da direção de seu primeiro longa-metragem, “O Estudante”. Nele, conhecemos Roque, o estudante do título, que já largou dois cursos universitários e vai para Buenos Aires para cursar o terceiro, sem nenhum objetivo concreto. Originário do interior, Roque (Esteban Lamothe) é fisgado pelo mundo da política universitária depois de se interessar por Paula (Romina Paula), uma professora bastante engajada – e atraente – do campus. Pouco a pouco, ele vai se envolvendo com as causas e integrantes do partido de Paula, até estar finalmente integrado ao mesmo a ponto de largar os seus estudos e se dedicar somente à luta pela liderança estudantil em sua universidade.


O mundo da política universitária apresentado a Roque não é muito diferente do universo político fora dela, podendo facilmente ser traçado um paralelo entre ambos. Com um enredo universal, Mitre escancara para o espectador os bastidores da política interna das faculdades públicas e prova, mais uma vez, que somente ideais jovens revolucionários não são páreo frente a um jogo de poder e interesse sem limites. Vemos a ingenuidade inicial de Roque para com a política se esvair gradualmente e se transformar em desilusão ao se dar conta da torpeza presente em seus imorais meandros. A tensão da trama é crescente e repleta de códigos e intrigas para serem desvendados tanto por Roque quanto pelo público, que é convidado a questionar a sua moralidade juntamente ao protagonista.


O que poderia ser uma desvantagem para “El Estudiante” (no original) é convertido em vantagem pela competência de Mitre como diretor, que, com um baixíssimo orçamento, uma trilha sonora marcada, diálogos quase consecutivos e uma câmera por vezes trêmula, deixou um filme com ar documental muito pertinente ao roteiro.

Premiado nos festivais de Toronto, Locarno e BAFICI, “O Estudante” é um thriller político de primeira qualidade, daqueles ascendentes que te prendem sem esforço até o final. E que final!

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Estudante (El Estudiante)

Argentina – 2011. 110 minutos.

Direção: Santiago Mitre

Com: Esteban Lamothe, Romina Paula, Richard Felix e Valeria Correa.


Nota: 5

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