sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A Grande Beleza

Em 2011, o diretor italiano Paolo Sorrentino teve sua primeira experiência na direção e roteiro de um filme todo falado em inglês, intitulado Aqui é o Meu Lugar. Tendo o ex-astro do rock cinquentão Cheyenne, interpretado por Sean Penn, como protagonista, Sorrentino conta uma história de nostalgia, incertezas, reflexão sobre a vida e a morte e recomeço que lhe rendeu o Prêmio Ecumênico do Júri no Festival de Cannes e uma indicação à Palma de Ouro também no Festival de Cannes em 2011. Depois de tratar de assuntos complexos e filosóficos no original This Must be the Place, Sorrentino decidiu dar vida a um enredo que aprofunda ainda mais essas e outras questões, e o melhor: em suas bellas língua e terra natais. Com estreia anterior no Festival do Rio 2013, chegou aos telões brasileiros esta semana A Grande Beleza, uma verdadeira obra-prima de Sorrentino, que conta a história de Jep Gambardella, um rico jornalista que acaba de completar 65 anos e começa a refletir sobre seu estilo de vida vazio e luxuoso após saber da morte de um grande amor do passado. Assim como Cheyenne, Jep observa a sua própria vida e a vida a seu redor, o mundo como um todo, simultaneamente de maneira séria e irônica. A autenticidade rege a vida de ambos os personagens. Afinal, quando é necessário levar a vida a sério?


O filme se inicia com uma propícia citação sobre a vida e seu fim. Em meio a belíssimos monumentos de Roma, um turista oriental morre repentinamente no instante em que decide tirar uma foto em frente à famosa Fontana di Trevi, cenário de uma das mais bonitas e inesquecíveis cenas da história do cinema, protagonizada por Marcello Mastroianni e Anita Ekberg em La Dolce Vita, de Federico Fellini. A música de fundo é celestial, com um lindo coral feminino, demonstrando a beleza e a finitude da vida e durando até o final da cena, quando há um corte brusco para uma opulenta festa animadíssima, regada a música eletrônica, muita bebida e libertinagem, que lembra as pomposas festas da mansão de Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio) em O Grande Gatsby (2013) de Baz Luhrmann. Depois de alguns minutos, o espectador percebe que é a festa de 65 anos de Jep, causando um estranhamento inicial por conta da incompatibilidade entre o estilo da festa e a idade do aniversariante. No dia seguinte a sua festa, desperta em Jep um sentimento de velhice perante o mundo e a juventude atual que não consegue compreender; ele se sente velho e perdido. É aí então que começa a refletir profundamente sobre sua vida e o modo como a vem levando há tantos anos. Muitas conversas com a sua chefe anã e com seus amigos em reuniões habituais em sua luxuosa cobertura se sucedem, além de eventuais encontros com novas pessoas em excêntricas exposições de arte. Jep sempre é questionado sobre os motivos pelos quais não escreveu outro livro depois do sucesso de seu único romance “O Aparelho Humano”, e ele não tem uma resposta concreta, talvez porque nunca tenha parado para pensar nisso antes. Ao ser provocado por sua amiga Stefania (Galatea Ranzi) em uma destas reuniões sobre o tema hipocrisia humana, Jep utiliza a sinceridade extrema e a ironia mordaz para responder à altura, deixando todos perplexos, principalmente a atingida; e voilà uma das cenas mais perspicazes do longa.

Durante todo o filme, a água do mar (ou a piscina em uma cena específica) aparece em momentos pontuais, sempre simbolizando a proximidade de uma grande mudança na vida de Jep. A água do mar representa não só a calma e o infinito como também o lugar onde Jep teve sua inesquecível primeira vez com seu primeiro amor de adolescência, que ficou sabendo amá-lo por toda a vida após sua morte, anunciada por seu ex-marido viúvo. Assim, Jep relembra o passado com carinho, sente vontade de mudar o seu presente e até de escrever um novo livro, só não sabe como escrever sobre o nada.


Ao visitar um antigo amigo que não vê há 30 anos, Jep conhece sua filha Ramona (Sabrina Ferilli), uma stripper quarentona pela qual se interessa e tenta começar uma relação. Uma das cenas mais marcantes do filme é a que Jep explica as regras de etiqueta num enterro de forma descontraída para Ramona enquanto esta experimenta vários vestidos para acompanhá-lo em um. A cena seguinte, do velório e enterro do filho de sua amiga, complementa a anterior e diverte o público pela clara execução das regras citadas por Jep. Outra cena que merece destaque é a cena do jantar organizado na casa de Jep para Irmã Maria (Giusi Merli), que é fã do livro de seu anfitrião. Em uma conversa a sós com Jep, a freira lhe diz que só se alimenta de raízes “porque raízes são importantes” e esta curtíssima frase tocou Jep tão profundamente que ele foi em busca de suas próprias.

Com cenários maravilhosos de Roma, excelentes diálogos, personagens interessantes e uma trilha sonora melancólica durante toda a narrativa que reflete o estado de espírito de seu protagonista, interpretado brilhantemente por Toni Servillo, que repete pela terceira vez a parceria com Paolo Sorrentino (As Consequências do Amor, 2004 e O Divo, 2008) e também esteve nos cinemas do Brasil este ano no forte A Bela Que Dorme (Marco Bellocchio, 2012), A Grande Beleza é um filme estupendo, essencial a todo cinéfilo e, quiçá, a todo ser humano; uma crítica à vazia alta sociedade italiana e à austeridade da Igreja, com uma linguagem inteligente que baila entre o drama e o humor ácido. Em seus muito bem aproveitados 142 minutos de película, Sorrentino consegue fazer o espectador se divertir, se emocionar e refletir sobre a sua vida e a de Jep, sem desgrudar os olhos da tela um só segundo. É uma história que não termina no fim, mas deixa um gosto de mais querer. Qual a grande beleza da vida? “É só um truque”.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Grande Beleza (La Grande Bellezza)

Itália / França - 2013. 142 minutos.

Direção: Paolo Sorrentino

Com: Toni Servillo, Roberto Herlitzka, Sabrina Ferilli, Leo Mantovani, Carlo Buccirosso, Giorgio Pasotti, Massimo Popolizio e Serena Grandi.


Nota: 5

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