domingo, 16 de fevereiro de 2014

Entrevista com diretor e elenco de Quando Eu Era Vivo

No dia 29 de janeiro, o diretor Marco Dutra e os atores Marat Descartes, Gilda Nomacce, Tuna Dwek, Kiko Bertholini e Rony Koren estiveram em um cinema em Botafogo, no Rio de Janeiro, logo após a sessão para imprensa do filme Quando Eu Era Vivo, batendo um papo com os jornalistas presentes; e é claro que o Almanaque Virtual não poderia estar de fora.

Marco Dutra iniciou a entrevista falando sobre a escolha de Sandy Leah para interpretar Bruna. Ele diz ter tido certeza quase absoluta de que ela seria perfeita para o papel, com apenas 2% de dúvida quando pensava que as pessoas achariam estranho ela participar de um filme de terror. Contrariando as apostas da produção sobre Sandy aceitar a proposta, ela leu o roteiro em apenas um dia e adorou a história, tendo aceitado rapidamente o convite para atuar. Por ter sido fã de Sandy na infância, Dutra afirma que havia uma relação emocional com a cantora e que o mesmo acontecia com o personagem Júnior em relação à mãe, Olga, o que fez com que sua aposta de assertividade fosse ainda maior com relação a esta parceria. Sobre a escalação de Antônio Fagundes para interpretar o personagem Sênior, Dutra conta que foi um acaso do destino, pois o ator leu o livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, no qual o filme é baseado, gosta muito do autor Lourenço Mutarelli e encontrou sua esposa Lucimar numa livraria, lhe transmitindo o quanto gostou do livro. Lucimar comentou com seu marido, que comentou com Rodrigo Teixeira, que é o produtor de Quando Eu Era Vivo. Assim, quando a ideia pôde sair do papel, em 2011, e Teixeira chamou Dutra para dirigir o longa, já era quase certo que Fagundes teria o papel, como ele mesmo sugeriu que gostaria.

A filmagem ocorreu no fim de 2012 e durou 18 dias, com o “milagre” do plano de filmagem feito pelo assistente de direção Daniel Chaia, como brincou Dutra, já que tanto Fagundes quanto Marat estavam com projetos paralelos no período, que complicavam o tempo de filmagem.


Como fã de filmes de terror (e também de filmes de gênero no geral, pessoalmente e como ferramentas), ele e sua parceira desde a faculdade Juliana Rojas sempre cultivaram o desejo de realizar um longa-metragem de terror. “Quando começamos a fazer filmes, estudar, entender, vimos que o certo não é partir da fórmula, não é partir do ‘quero fazer um filme de terror’; e sim entender sobre o que você quer falar, os assuntos, o universo, o tema, os personagens, a estrutura, e deixar as coisas nascerem do conteúdo do filme, para depois vir a forma. O que aconteceu com esse filme, especificamente, é que ele é uma adaptação do livro do Mutarelli, que é um livro muito perturbador, muito complexo da relação de um pai com o filho. Não é um livro de terror. A lógica dos gêneros literários é outra. Quando fizemos a adaptação com a Gabriela Amaral Almeida, que é a co-roteirista, começamos a ver que as ferramentas do cinema de suspense eram ideais para abordar a tensão da relação desses dois, e aí virou um filme que usa essas ferramentas”, afirma. Sobre as referências utilizadas para a criação do roteiro, Dutra declara que não usou nenhuma específica e que o roteiro foi fruto de um profundo estudo do livro de Lourenço Mutarelli. A direção de arte e de fotografia trouxeram algumas referências para as reuniões de pré-produção para “aquecer”, como diz Dutra, porém as ideias foram abandonadas depois disso para que Quando Eu Era Vivo tivesse sua própria identidade, sem ter conexão com outras obras. Dutra confessa que Síndrome de Caim (1992) e Vestida Para Matar (1980), de Brian De Palma, foram utilizados nessas reuniões para entendimento de seus mecanismos, mas não para serem copiados de alguma forma. Marat Descartes, por sua vez, diz que logo que Dutra lhe falou um pouco sobre o roteiro, lhe veio à mente imagens de O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, e do protagonista Jack Torrance (vivido por Jack Nicholson), devido ao fato de ambos os filmes possuírem pontos de contato - a situação de confinamento e o processo de loucura. Dutra ainda completa que a diretora de arte Luana Demange (que foi cenógrafa no seu primeiro projeto para o cinema, Trabalhar Cansa) trouxe inspirações de um personagem do diretor Aki Kaurismäki de um filme dos anos 80 (provavelmente Ariel, de 1988, mas não se recordou do nome na hora) para a composição de Júnior, personagem de Marat.


Logo que começaram a escrever o roteiro, cruzando a ponte entre linguagem literária e cinematográfica, Gabriela e Dutra perceberam que a personagem Bruna, que no livro de Mutarelli era estudante de artes plásticas, precisaria ser estudante de música para cumprir melhor o seu papel de mediadora utilizando a voz, e não desenhando, como na obra original. A música seria algo muito importante para o filme. Dutra (que também é músico) explica que fez uma parceria com os produtores musicais Guilherme Garbato e Gustavo Garbato para compor a canção que a mãe de Júnior, interpretada por Helena Albergaria, deixou para ele em forma de partitura e que ela deveria ter, ao mesmo tempo, um tom macabro e de música de ninar.

Junto com Marat e Dutra, Tuna Dwek comenta a marcante cena em que sua personagem Lurdinha apanha de Júnior. Ela diz que, por ser uma cena que divide o filme, precisava ser muito bem feita de primeira, para não comprometer a continuidade e passar verdade para o público. Por isso, foi ensaiada diversas vezes milimetricamente. Dutra ainda comentou sobre a importância dos personagens ditos coadjuvantes, que são essenciais para a trama. Como exemplo, ele citou o personagem Paulinho, vivido por Rony Koren, que, em apenas duas cenas, é um termômetro da mudança de Bruna ao longo da história; a personagem Miranda, interpretada por Gilda Nomacce, que marca a transformação do apartamento onde se passa a maior parte do filme, e o personagem Pedro, irmão de Júnior, representado por Kiko Bertholini, que aparece em uma única cena, mas que é essencial para o filme e o prepara o clímax final.


Ao ser questionado sobre o fato de ser considerado pelo jornal O Globo como a nova cara do cinema de suspense nacional, Dutra se diz feliz, mas que não se sente envaidecido por isso. Ele diz gostar do gênero e que sempre achou estranha a falta de classificação dos filmes brasileiros nas vídeo-locadoras, sendo sempre catalogados apenas como nacionais. Dutra considera que os gêneros podem ajudar a diversificar a produção, acabando com o rótulo de que cinema nacional é do gênero nacional, que os filmes têm diferença de abordagem, estéticas e de proposta entre si, além de conseguir acessar lugares específicos, conferindo significado às películas. Não por coincidência, seus dois próximos filmes serão de terror – Boas Maneiras, mais uma vez em parceria com Juliana Rojas, e outro projeto envolvendo vampiros, ainda bem no início, com a produtora RT Features, mesma de seu atual trabalho. Entretanto, sua grande aspiração é criar um musical, outro gênero que aprecia muito.

Quando Eu Era Vivo está em cartaz em 22 salas do Brasil. Vale a pena conferir o trabalho desse talentoso cineasta de apenas 33 anos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

Um comentário:

Erica Ferro disse...

Já disse que fiquei encantada com a genialidade de Marcelo Dutra e sua turma, não é?
Pois então! Depois de ler essa matéria, fiquei ainda mais encantada por esse cara. Não pelo cara, melhor dizendo, mas sim por suas concepções, suas ideias e seu modo de fazer cinema.
Houve uma palestra sobre cinema na UFAL, onde curso Biblioteconomia, e eu fiquei simplesmente encantada com cada etapa, com a complexidade de todo esse universo cinematográfico. Não é fácil produzir um curta, quanto mais um longa. Os desafios devem ser parecidos, mas creio que um longa seja ainda mais trabalhoso. No entanto, exige dedicação, muito conhecimento, muito trabalho, mas, ao que parece, pelo ar de satisfação da palestrante, que tudo vale a pena ao ver a película pronta.
Depois desse contato maior com o mundo do cinema, fiquei tentada a participar de uma produção assim em algum momento da minha vida. Seria uma experiência bem bacana. Cinema é muito envolvente. ;)

Um abraço!

Sacudindo Palavras

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