sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Jovem Aloucada

Num cenário cinematográfico em que surgem cada vez mais filmes que abordam e celebram a liberdade sexual, seja ela hetero, homo ou bissexual – vide os mais atuais Ninfomaníaca, Azul É a Cor Mais Quente, Além da Fronteira, Um Estranho no Lago e Tatuagem –, a comédia dramática chilena Jovem Aloucada veio para somar. Inspirada em uma personagem real, Daniela (Alicia Rodriguez) é uma menina de 17 anos prestes a fazer vestibular que teve uma rígida criação evangélica e, como toda adolescente, está descobrindo a sua sexualidade. Para narrar episódios de sua vida e compartilhar suas dúvidas, reflexões e aventuras sexuais, ela cria o blog Joven y Alocada (que dá o nome ao título original do filme). Após ser expulsa do colégio por fazer sexo com um colega, Daniela é proibida de prestar vestibular e obrigada pela mãe a trabalhar numa emissora de televisão evangélica, onde conhece Thomas (Felipe Pinto) e Antônia (Maria Gracia Omegna), com quem desenvolve intensos relacionamentos que a deixam confusa, dividida e cheia de indagações sobre a vida.


Com uma linguagem moderna, repleta de muito humor, ironias, metáforas e comparações bíblicas com sexo, o filme é fragmentado em 12 capítulos de um todo, que Daniela nomeou ironicamente de “evangelho”, em forma de posts de blog. Os recursos de animação utilizados para representar alguns pontos de episódios eróticos de sua narração complementam a mesma de forma divertida.

Ao ganhar primeiramente o título em português de “As Aventuras de Uma Ninfomaníaca” para depois adotar a tradução do título original, houve um ideia equivocada sobre Jovem Aloucada, já que Daniela não é ninfomaníaca, é apenas uma jovem ardorosa como outra qualquer, explorando os prazeres e as possibilidades do sexo. Entretanto, é possível traçar similaridades entre Daniela e as personagens Joe (Ninfomaníaca, de Lars Von Trier) e Adèle (de Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche) – como Joe (Stacy Martin), Daniela descobriu ainda na infância sua sexualidade e nunca teve vergonha de experimentar; e como Adèle (Adèle Exarchopoulos), ela gostava tanto de carne quanto de queijo, metáfora que ouviu sobre bissexualidade uma vez no ônibus, e se sentia confusa em relação a seus sentimentos. E não é a primeira vez que a atriz Alicia Rodriguez participa de um triângulo amoroso bissexual na ficção: em Navidad (Sebastián Lelio, 2009), ela também foi objeto de desejo entre um menino e uma menina, mas desta vez um casal em crise.


Uma personagem-chave para entender o comportamento de Daniela é sua mãe Teresa, interpretada por Aline Kuppenheim, uma evangélica fervorosa e pudica que considera o sexo o pior pecado para uma mulher. Como citou Daniela, o principal mandamento da mãe é “não fornicarás”, ao invés de ser “não matarás” ou “amarás ao próximo como a ti mesmo”, tanto que cortou relações com sua filha mais velha e proibiu Daniela de vê-la quando ficou sabendo que ela transou com o namorado e casou-se com ele escondida. Teresa é uma mãe tão castradora que fez com que suas duas filhas crescessem com uma rebeldia latente que exteriorizou-se na adolescência em forma de desejo sexual intenso. É somente em sua tia Isabel (Ingrid Isensee), que está com câncer terminal, que Daniela encontra conforto e compreensão. Embora também seja evangélica, Isabel é o oposto de Teresa e não é cegamente presa às doutrinas da religião. O enredo levanta, ainda, assuntos como machismo (apenas Daniela foi expulsa do colégio e o menino com quem transou, não, porque “ela o tentou”) e hipocrisia, em especial a religiosa, questionada a todo momento por Daniela com boa dose de humor debochado, como na ótima cena em que ela entrevista, pela emissora, um crente convertido há pouco tempo.


Por sua competência, o roteiro co-escrito por Marialy Rivas, Camila Gutiérrez, Pedro Peirano e Sebastián Sepúlveda ganhou o prêmio de Melhor Roteiro de Ficção do Cinema Mundial e o prêmio Directors and Screenwriters Lab no Festival Sundance de Cinema em 2012. À frente da direção de seu primeiro longa-metragem, Rivas claramente não decepciona, conseguindo dar leveza a um filme que trata de assuntos polêmicos de forma corajosa e explícita. Fechando o filme com chave de ouro, temos a canção “Nah de Nah” de Javiera Mena (cover em espanhol de "Non, Je ne regrette rien", de Edith Piaf). No primeiro “evangelho” de sua vida, Daniela amadureceu. A Jovem Aloucada não se arrepende de nada.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Jovem Aloucada (Joven y Alocada)

Chile - 2012. 96 minutos.

Direção: Marialy Rivas

Com: Alicia Rodriguez, Aline Kuppenheim, Felipe Pinto, Maria Gracia Omegna, Ingrid Isensee e Andrea García-Huidobro.


Nota: 4

Um comentário:

Erica Ferro disse...

Creio que vi esse filme de relance na TV Cultura certo dia, quando zapeava canais numa noite de sábado.
E agora me arrependo porque, pela sua resenha super massa e bem escrita, é mesmo um bom filme.

Um abraço, Raíssa!

Sacudindo Palavras

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