sábado, 15 de fevereiro de 2014

Quando Eu Era Vivo

 Para mudar o cenário insuficientemente explorado, pouco criativo e estagnado do gênero de terror do cinema nacional – dominado por José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, nome do personagem de À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963) que lhe deu fama –, eis que surge Marco Dutra com seu primeiro longa-metragem (em parceria com Juliana Rojas): o terror psicológico Trabalhar Cansa, vencedor do prêmio especial do júri e de melhor som no Festival de Paulínia de 2011 e concorrente na seção Un Certain Regard no Festival de Cannes do mesmo ano. Seu segundo trabalho para o cinema, Quando Eu Era Vivo, não deixa nada a desejar ao antecessor. Pelo contrário: a competência de Dutra na direção e no roteiro é reforçada. Baseado no livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, de Lourenço Mutarelli (que faz uma rápida aparição no filme como Donato), o filme conta a história de Júnior (o ótimo Marat Descartes), um homem recém-separado e desempregado que volta a morar com o pai depois de anos, ocupando seu sofá enquanto a estudante de música Bruna (Sandy Leah), a nova inquilina de Sênior (Antônio Fagundes), ocupa seu antigo quarto. Ao encontrar antigos objetos da falecida mãe, Júnior começa a desenvolver uma obsessão pelo passado e por assuntos sombrios que alimentam muito mais do que uma simples nostalgia.


O filme é introduzido pelo som de flauta doce, uma composição de suspense, e entrelaçados de costura que vão aos poucos formando uma imagem que, mais tarde, descobrimos ser de um antigo quadro feito de tapete da mãe de Júnior. Ele decide arrumar o quartinho para lá se instalar, mesmo contra a vontade do pai, e acaba encontrando os objetos antigos da mãe que trazem à tona lembranças de sua infância. Surgem, então, cenas de Júnior e seu irmão Pedro quando crianças, interpretados por Carlos Albergaria e Marc Libeskind, com a mãe Olga em estranhas situações, para dizer o mínimo. É através da fita de vídeo encontrada por Júnior que o espectador tem o primeiro contato com um ritual ocultista feito por Olga envolvendo os filhos. Depois de ver a fita, Júnior transforma toda a sala ao que era há muitos anos com os bizarros objetos da mãe, instaurando um clima macabro na casa e no filme até o final. A descoberta de uma velha partitura da mãe, com um texto atrás que parece um anagrama, acentua ainda mais tal clima e direciona o restante do enredo. A visita que Júnior faz ao irmão Pedro (vivido por Kiko Bertholini) no manicômio sinaliza ao espectador qual será o fechamento da película.

A complicada relação entre pai e filho é brilhantemente interpretada por Marat Descartes como o soturno Júnior e pelo veterano Antônio Fagundes como o desconfiado Sênior. Desde o primeiro encontro, é possível perceber certo distanciamento e ressentimento latente entre ambos, que a mudança gradual no comportamento de Júnior agrava ainda mais. Por outro lado, Júnior se aproxima cada vez mais de Bruna, vivida por Sandy Leah, cujo papel é fundamental na trama. Sandy e Bruna são muito parecidas, já que a simpatia e dulcilidade da cantora foram preservadas na personagem – pode-se dizer que ela interpreta a si mesma, inclusive porque seu atributo vocal é importantíssimo para a evolução da narrativa. A figura de Sandy compõe também um dos paradoxos imagéticos do filme, pois meiguice e ocultismo são questões completamente contraditórias, assim como a placa pendurada na sala com os dizeres “Deus proteja este lar” e a imagem de Nossa Senhora Aparecida (dada a Sênior por Júnior) o são em relação aos livros e peças satanistas de Olga, interpretada por Helena Albergaria em sua segunda parceria com Marat Descartes e Marco Dutra (a primeira foi em Trabalhar Cansa).


Quando Eu Era Vivo não deixa nada a desejar a produções norte-americanas como o clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick, principal inspiração de Dutra e Marat, O Chamado (Gore Verbinski, 2002), A Chave Mestra (Iain Softley, 2005) ou Carrie, a Estranha (Brian De Palma, 1976). A obra de Dutra é competente em todos os sentidos e seu valor se eleva ainda mais pelo fato de ser uma produção de baixo orçamento. Além do excelente roteiro, em parceria com Gabriela Amaral Almeida, que conseguiu transformar um drama em um envolvente terror psicológico, a qualidade da trilha sonora (da qual Dutra participou da composição da música final), dos efeitos sonoros, da iluminação e da fotografia impressiona. A função como elementos indicadores de transformação no curso do plot é desempenhada de forma habilidosa e marcante em todos os momentos. Muito seguro de seu trabalho, Dutra nos brinda com uma interessante produção de gênero e prova que ainda há esperança para o cinema brasileiro.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Quando Eu Era Vivo

Brasil - 2014. 109 minutos.

Direção: Marco Dutra

Com: Antonio Fagundes, Marat Descartes, Sandy Leah, Gilda Nomacce, Kiko Bertholini, Helena Albergaria, Rony Koren, Tuna Dwek, Lourenço Mutarelli, Eduardo Gomes, Lilian Blanc, Carlos Albergaria e Marc Libeskind.


Nota: 5

2 comentários:

Erica Ferro disse...

Puxa, que excelente crítica! Adorei do começo ao fim, falou de cinema com propriedade, com convicção, passou segurança em cada ponto. Parabéns, Raíssa!
Eu não veria o filme porque não curto muito terror, mas que você conseguiu despertar, e muito!, a minha curiosidade, conseguiu mesmo.

Beijo!

Sacudindo Palavras

*Raíssa disse...

Obrigada, Erica! Esse feedback dos leitores é muito importante pra mim! :)

Pode ver o filme que realmente vale a pena! Conheço gente que não gosta e tem medo de filmes de terror, mas gostou deste!

Beijos!

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