domingo, 16 de março de 2014

A Gaiola Dourada

A questão da imigração é tratada constantemente no cinema. Entretanto, não havia nenhuma obra específica cujo tema fosse a imigração portuguesa na França a partir da segunda metade do século XIX. A Gaiola Dourada, primeiro longa do diretor luso-descendente Ruben Alves, retrata exatamente esta situação, de forma muito leve e divertida. O filme conta a história de um casal português que vive há pouco mais de 30 anos em Paris, tem dois filhos lá nascidos e que ganhou uma ótima oportunidade de regressar à sua terra natal. Por terem se tornado indispensáveis em seu círculo de convivência, todos à sua volta começam a criar situações para que eles continuem na França, enquanto ambos decidem se realmente vão deixar para trás sua vida em Paris.


Maria (Rita Blanco) e José (Joaquim de Almeida) Ribeiro são, respectivamente, zeladora e construtor civil, e são extremamente eficientes em seus ofícios, deixando-se ser explorados por seus patrões sem parecer se importar. A bondade de ambos pode estar relacionada com seus nomes deveras comuns, que, coincidentemente, representam os nomes dos pais de Jesus Cristo na Bíblia. Mas a questão é que o casal sempre cede às vontades de seus superiores e até de sua família e vizinhos, preocupam-se mais com os outros que com si mesmos, gerando uma relação de dependência com muitos deles. A partir do momento que José recebe a notícia da morte de seu irmão, seguida de uma herança que exige em testamento a sua volta a Portugal para que possa ser usufruída, ele e Maria se veem num enorme dilema de retornar à sua amada terra natal ou continuar na cidade-luz, onde tiveram e criaram seus filhos e estabeleceram uma vida estável. A resolução, claro, só se dá no final do enredo, e de uma maneira não tão esperada após um jantar romântico ao som de uma marcante apresentação de fado.

Embora o filme seja oficialmente uma comédia, possui também uma certa carga dramática, feita para emocionar, e uma dose de romance, retratado nos papéis dos filhos do casal protagonista – Paula (Barbara Cabrita) e Pedro (Alex Alves Pereira). É também através dos dois personagens filiais que clichês, como namoro escondido dos pais, gravidez antes do casamento e mentira por vergonha das origens, são inseridos na trama. Outras personagens que merecem destaque são Lourdes (interpretada pela simpática Jacqueline Corado), que lembra a batalhadora Raimunda, vivida por Penélope Cruz em Volver (Pedro Almodóvar, 2006), e Rosa, uma típica portuguesa interpretada pela atriz Maria Vieira, que participou de duas novelas brasileiras (“Aquele Beijo” e “Negócio da China”).


Há uma enorme similaridade do filme do estreante Ruben Alves com o longa As Mulheres do 6º Andar (2010), de Philippe Le Guay. Os dois apresentam a situação de imigrantes em Paris – um sobre os discretos portugueses e o outro sobre as animadas espanholas, todos trabalhando em edifícios de pessoas ricas como zeladores ou empregadas. Contudo, em La Cage Dorée (no original) paira a dúvida sobre a volta ao seu país de origem, quando em Les Femmes du 6ème Étage (também no original) fica claro o desejo de retorno à terra natal por parte da maioria das personagens. Assim como Alves procurou atores portugueses para dar veracidade à história, Le Guay também buscou atrizes espanholas com a mesma finalidade, e o resultado foram duas belas e sensíveis produções.

A metáfora do título do filme franco-português possui o mesmo sentido do título do drama mexicano La Jaula de Oro (Diego Quemada-Diez, 2013), além de ambos serem bastante parecidos. Enquanto que no primeiro os personagens já estavam estabelecidos há muitos anos em outro país, no segundo um grupo de adolescentes guatemaltecos lutava para conseguir alcançar o sonho dourado de chegar aos Estados Unidos pela fronteira do México. Como mostrado em Nação Fast Food (Richard Linklater, 2006), Juan (Brandon López) viu seu sonho transformado num subemprego numa fábrica americana conjunto à uma ilegalidade no país, porém não deixou de ter seu objetivo alcançado de finalmente estar na sua “jaula de ouro”.


Sucesso de público na França e um fenômeno cinematográfico e social em Portugal, A Gaiola Dourada com certeza não é um filme para ser esquecido, tampouco preterido, pois é na sua simplicidade que possui força. A sua grande capacidade de alcance de público é outro ponto a favor – são 90 minutos de identificação, diversão e emoção. Que Ruben Alves traga mais filmes como este às telas.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Gaiola Dourada (La Cage Dorée)

França - 2013. 90 minutos.

Direção: Ruben Alves

Com: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry, Maria Vieira, Jacqueline Corado, Jean-Pierre Martins e Nicole Croisille.


Nota: 4

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