quarta-feira, 19 de março de 2014

Entrevista com diretor e atriz do filme A Gaiola Dourada

No dia 9 de janeiro deste ano, entrevistei a atriz Jacqueline Corado e o diretor Ruben Alves, que dirigiu e roteirizou seu primeiro longa-metragem, a comédia dramática luso-francesa A Gaiola Dourada, cuja pré-estreia aconteceu no dia anterior na Maison de France, seguida por uma festa comemorativa em numa mansão no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, onde também ocorreram as entrevistas. Tanto Jacqueline quanto Ruben foram extremamente simpáticos e divertidos enquanto respondiam às perguntas, e até se emocionaram em alguns momentos, estando bastante à vontade durante todo o bate-papo. Pelo fato de os dois conhecerem e vivenciarem de perto a temática do filme, foi possível perceber bastante sinceridade em suas respostas.

Ruben Alves inicia a conversa falando que o título A Gaiola Dourada e a ideia para o filme surgiram de uma entrevista que ele viu na televisão sobre uma zeladora portuguesa em Paris que revela seu cotidiano desde que foi morar na cidade e diz que tem vontade de retornar a Portugal, mas que se sente muito bem em sua “gaiola dourada”. Ele percebeu que gostaria de retratar a vida desses imigrantes portugueses na França, que residem há aproximadamente 40 anos no país, que reconstruíram suas vidas longe de sua terra natal e que nutrem esse questionamento sobre voltar para ela ou continuar em seu novo país. A partir daí, Ruben começou a escrever, incentivado por seu amigo de infância e produtor Hugo Gélin, pois havia muito pouco material sobre o assunto no cinema. Ruben ainda diz que a comunidade portuguesa na França é bastante numerosa, porém que por ser muita discreta e integrar-se tão facilmente, sua história é pouco conhecida e quase anulada.


Além da reportagem, as outras inspirações de Ruben para realizar o seu projeto foram a sua família, os seus amigos, pessoas de seu convívio, outros imigrantes que conheceu e a vida, sendo seus pais (para quem dedicou o filme) a maior inspiração, pois são portugueses imigrantes como o casal protagonista da película. Ruben diz que todos os personagens foram inspirados em alguém do grupo por ele citado e que ele próprio é uma mistura de todos. Jacqueline cita que “Ruben é um grande observador da comunidade onde nasceu e cresceu, e que os personagens são frutos de uma grande inteligência e uma grande sutileza, adquirida através de um grande estudo étnico-social que Ruben fez a vida toda, e que por isso o filme é muito sutil e verdadeiro”. Ela diz que conheceu várias “Lourdes” (nome de sua personagem) em Paris durante a sua vida e que em todo filme sobre imigrantes as pessoas se reconhecem nos personagens. Sobre sua personagem no filme, Jacqueline disse: “adorei interpretar a Lourdes porque é uma mulher muito expressiva, um pouco tragediante e eu conheço à minha volta, na minha família, pessoas assim. Então foi muito bom, muito gostoso poder interpretar. Para mim, os primeiros dias foram muito complicados porque era quase uma terapia; eu estava me integrando ao elenco. O Ruben soube criar desde o primeiro dia uma atmosfera de uma família recomposta. O fato de selecionar atores franceses para fazer franceses, de impor atores portugueses para fazer portugueses e atores luso-descendentes como luso-descendentes, a gente soube criar ali, com a maneira que ele tem sempre agradável, uma espécie de família; então a gente logo mergulhou naquela emoção, naquela criação de família. Para interpretar essa personagem era quase uma psicoterapia, vinham coisas à tona da minha família e da minha própria história. Mas foi uma felicidade absoluta. Foi um orgulho, uma honra absoluta, não só como atriz, pois era o primeiro filme feito sobre a minha comunidade, feito e escrito por um filho dessa comunidade, que sabe falar dela como ninguém. Pode vir toda a crítica que vier de volta, porque ele sabe o que está fazendo”. Além disso, Jacqueline se referiu à Lourdes como uma personagem de destaque, já que sua personalidade destoa do perfil discreto da comunidade portuguesa, como citado anteriormente por Ruben, que também descreve a personagem: ela reivindica, quer seus direitos, quer ter seu próprio negócio, se destacar, quer ser francesa, tem atitude, é uma geração depois da geração da irmã Maria, interpretada por Rita Blanco, que é zeladora e é explorada pela patroa. Os dois tiveram como referencial para criar Lourdes uma personagem libanesa, mas como Ruben queria destacá-la pela cor das roupas para mostrar esse lado mais “para frente”, ela acabou se parecendo com uma espanhola – mais especificamente com Raimunda, interpretada por Penélope Cruz em Volver (2006), de Pedro Almodóvar, como proferido pelo Almanaque Virtual.


Sobre a composição do elenco, Ruben reiterou que foi buscar atores portugueses em Portugal – a Rita Blanco em Lisboa, que, para ele, é a melhor atriz portuguesa. Joaquim de Almeida ele encontrou por acaso no Festival de Cannes, foi apresentado por uma amiga e logo lhe perguntou se gostaria de ler o seu roteiro. Em suas palavras: “Acho que ele podia dar certo porque é imigrante, mora nos Estados Unidos há 36anos, então eu acho que ele ia perceber e, como ele faz sempre os maus nos filmes americanos, aquela coisa do latino ser mau, achei muito interessante ele fazer um personagem muito humilde e trabalhador, uma coisa diferente; o challenge era muito bom”. Ele falou também que a atriz portuguesa Maria Vieira, que já participou das novelas “Aquele Beijo” e “Negócio da China” aqui no Brasil, era essencial no filme, pois ela representa o maternal, a proteção, e tem uma identidade genuinamente portuguesa. Somando-se a esses, entraram no elenco ainda os atores luso-descendentes Jean-Pierre Martins, Jacqueline Corado e Barbara Cabrita. Ruben disse que “foi mágico, porque eles perceberam logo ao ler o roteiro que ‘eu sei isso, são os meus pais ou a minha tia, a minha família’. Os detalhes todos eles perceberam logo, foi muito fácil logo de início”. Ruben cita, ainda, que não conhecia nenhum dos atores do elenco antes de começar o projeto, havia apenas a vontade de trabalhar com alguns dos atores e houve os encontros casuais, formando rapidamente uma grande família nas gravações.

Acerca das condições de filmagem, Jacqueline Corado contou terem sido maravilhosas, as melhores possíveis. Mais uma vez sem poupar elogios ao diretor Ruben Alves, ela o compara a um maestro regendo uma orquestra, pois não são todos que possuem o talento de aproveitar ao máximo o ótimo elenco que têm em mãos. Em suas palavras: “o diretor-maestro vai pegar todos os elementos e criar uma harmonia conjunta, com todos fazendo o mesmo movimento, enquanto que outras pessoas vão pegar bons elementos, bons músicos, mas nem sempre tocando em sintonia. Isso é um talento fabuloso que ele tem. Ele sabe exatamente a música que ele quer tocar, tem esse talento de pegar a personalidade de cada um e trazer para ali, e ele faz sem você se dar conta, só percebe que está fazendo porque está trabalhando com outros. Essa energia conjunta, que se sente no resultado do filme, vem dessa força dele. Certamente, de tudo isso que você faz naturalmente com seus amigos, e é isso o que eu chamo de um bom maestro – conseguir harmonizar todo mundo para tocar a mesma coisa”. Sobre as dificuldades durante a produção e filmagem do longa, Ruben afirmou de cara não ter tido nenhuma, pois, por ser o seu primeiro filme, ele tinha uma inocência e um entusiasmo muito grande, então achava tudo o que acontecia bom. Apesar de alguns problemas técnicos e imprevistos, ele olha para trás e diz para si mesmo “foi bom”, porque ele adquiriu experiência para seus próximos trabalhos. Ele não considera nada um problema, apenas diz que seu maior desafio foi impor atores portugueses numa produção francesa, pois não são conhecidos na França. Ele acredita que é preciso acreditar e apostar para haver uma grande produção.


O sucesso que a obra franco-portuguesa teve na França (1,5 milhão de espectadores, que é um ótimo público para um diretor novo, ainda desconhecido, segundo Jacqueline), aos olhos de Ruben, se deve ao fato de os imigrantes portugueses na França estarem à espera de uma representação, o que gerou uma enorme identificação em relação a La Cage Dorée (nome original). Há um apego muito grande a tudo o que vem de sua terra natal quando se está em outro país e o filme de Ruben tratou desta questão de uma forma como nunca havia sido tratada antes no cinema. A comunidade portuguesa da França se sentiu muito orgulhosa deste trabalho cinematográfico, gerando milhares de mensagens a Ruben no seu e-mail e em seu perfil do Facebook. Pessoas que antes tinham vergonha de serem imigrantes portugueses e filhos de imigrantes portugueses passaram a sentir orgulho disso, por isso o filme foi tão importante para a comunidade luso-francesa. Além disso, ele recebeu também mensagens de italianos, árabes, espanhóis, entre outras etnias, agradecendo pela produção. “Há muitos desraizados por todo lado e, no fundo, somos todos desraizados. Nascemos e crescemos num país, e depois vamos para outro, ou para outro estado, outra cidade. Isso todos podemos sentir. E acho que é por isso o filme fez um pequeno sucesso em vários países, porque eles sentem uma coisa que é universal. Isso tudo é uma história de amor, de família”, completa. Jacqueline adiciona o fato de que o longa não é pretencioso, não utiliza atores super conhecidos – é uma homenagem, é verdadeiro, e as pessoas estavam precisando disso. “É um filme que se apresenta como uma comedia quando você lê a sinopse, e finalmente tem um segundo efeito: por ser uma comedia, você ri, mas de repente, de um modo muito sutil, fala de coisas que dão para pensar, e acho que as pessoas têm sede disso. Aquela comedia pastelão, um pouco pesada, já chega às vezes com lições, como ‘cuidado, os imigrantes portugueses também podem ser sensíveis’; e essas lições as pessoas também não querem. E ele (Ruben) fez ali uma receita muito sutil: parece uma comédia e de repente vai pondo umas mensagens, mas sempre com um sorriso, ser dar lição de moral”, defende. Jacqueline ainda expôs o fato de que apareceram mulheres francesas falando que há 20, 30 anos conviviam com uma empregada ou zaladora portuguesa e que, após ver o filme, perceberam que elas eram portuguesas e o que era ser portuguesa; houve uma abertura e uma apresentação de valores internacionais, como antes citou Ruben. Em Portugal, o filme foi um fenômeno social e de bilheterias, se tornando a produção de maior sucesso do ano de 2013. Jacqueline cita a crise séria que o país está vivendo, fazendo com que a auto-estima de sua população esteja em baixa. Devido ao alto índice de imigração como há muito tempo não havia, todos os luso-portugueses acabam se identificando de alguma forma, por isso o longa toca tanto. “Ele dá orgulho da portugalidade. Só depois que o filme foi projetado em Portugal que percebi que o Ruben foi muito além dos portugueses na França. Se você vir com cuidado, está falando dos elementos da nossa portugalidade. O que faz hoje um país com uma crise brutal, com políticos que nem sempre estão ao nível – muitas vezes não estão ao nível -, que acontecem coisas que nos fazem dizer ‘nossa, como esse país está’? Mas, de repente, chega um filme que nos faz rir, é uma comédia, e que lembra porque Portugal pode ser um grande povo, porque ser portuguesa é uma coisa tão boa, com elementos delicados e sensíveis. Eu penso nesse povo que está com sede disso, de retomar orgulho nele próprio. Pessoas atravessaram 200 Km para ver isso”, inteira. Ela ainda revela uma situação do país bastante triste e outra bastante interessante, que a faz se emocionar: “Foi 1 milhão de pessoas em 60 salas de cinema, pois várias salas de cinema fecharam por causa da crise. As pessoas não vão ao cinema. Conheço pessoas que foram ao cinema pela primeira vez. Nas salas, você via pessoas que não sabem ler nem escrever com pessoas diplomadas; ele conseguiu atingir todas as classes sociais. As pessoas no cinema diziam ‘nossa, eu sou português! Portugal está mal, mas sou português e tenho orgulho de ser’, e não é qualquer coisa hoje que nos faz sentir isso. Penso que há um impulso que não passa pelo racional, mas pelo emocional. É genial quando você vê o Cônsul e o Embaixador na sala comovidos”.


A primeira vez que o filme foi exibido publicamente, no Festival de l'Alpe d'Huez de 2013, faturou o Prêmio do Público, aliviando o estresse de Ruben devido à sua estreia como diretor. Segundo ele, foram quatro meses de edição até chegar no resultado esperado e sua ansiedade estava mais ligada ao fato de não saber como seria a reação da comunidade portuguesa e de seus pais, que não sabiam do que se tratava exatamente A Gaiola Dourada e tiveram uma surpresa ao assistir, além de ganharem seus nomes antes dos créditos como presente e uma forma de homenagem de Ruben. Jacqueline conta que também ficou bastante ansiosa com a primeira exibição do longa e que adorou a atuação de todos, menos a dela – “complexo de atriz”, ela brinca. Já na segunda vez, ela abstraiu. Além dos pais de Ruben, os pais dela também estavam na mesma sala de cinema, e ela diz que, graças ao Ruben, ela pôde homenageá-los e emocioná-los igualmente.

Para terminar a entrevista, Ruben afirma ter dois novos projetos cinematográficos em andamento – um que possui um pouco de portugalidade e outro completamente diferente. Mesmo sem saber qual virá primeiro, ele comenta que seguirá a mesma linha do primeiro no que se refere a tratar de assuntos profundos de maneira leve.  Jacqueline revela que este ano estará em cartaz com duas peças na França: “Memórias de duas jovens casadas”, de Balzac, e um monólogo de 1 hora e 15 minutos de uma autora sueca contemporânea, que gostaria muito de levar para Portugal e para outros países, inclusive para o Brasil.


*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

Um comentário:

Salomão Cateb disse...

Parabéns, Ruben Alves, gostei do seu filme, sua estreia como longa-metragem. Faça outros e o público o aplaudirá. É uma comédia graciosa, especialmente porque baseada em histórias reais. Salomão Cateb, Belo Horizonte, MG.

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