segunda-feira, 24 de março de 2014

Prenda-me

Uma mulher sai de casa à noite, deixa tudo para trás e vai até uma delegacia confessar o assassinato de seu marido Jimmy (Marc Barbé, de Piaf - Um Hino ao Amor, 2007 e A Religiosa, 2013), cometido há 10 anos, pedindo à policial de plantão que a prenda, embora não seja essa a sua vontade após interrogá-la. É disso que se trata Prenda-me, novo longa-metragem de Jean-Paul Lilienfeld (O Dia da Saia, 2008). Sophie Marceau representa uma mulher reprimida que convive com a violência doméstica desde a infância, passando com seu marido pelas mesmas situações que sua mãe passava com seu pai. Pontoise – interpretada brilhantemente por Miou-Miou (O Oitavo Dia, 1996 e A Datilógrafa, 2012) – é a policial que ouve atentamente a sua história, que é também um desabafo que nunca conseguiu fazer, e se recusa a prendê-la por ter matado o seu agressor, à medida que toma conhecimento de todos os fatos envolvidos antes do ato cometido por esta mulher. Com algumas tiradas irônicas, a policial tenta convencê-la a desistir de se entregar, por não considerar que tenha feito nada de errado, porém sem sucesso. Vemos em Pontoise uma mistura de sentimentos em relação à assassina confessa: espanto, pena, compreensão, solidariedade, fúria, impaciência e até certa identificação, que só é exposta ao final da trama.


Ao contrário de seus trabalhos anteriores cujos títulos são os nomes de sua protagonista, Anna Karenina (Bernard Rose, 1997) e Nelly (Laure Duthilleul, 2004), em Prenda-me o nome da personagem de Sophie Marceau não é citado nenhum momento, mas a personagem possui igual relevância. A mulher que representa perdeu sua identidade, sente-se um nada no mundo, um ser impotente às situações que suportava passivamente com o marido antes de matá-lo e com o filho, que não se conforma com a morte do pai mesmo depois de tantos anos, e decide punir a mãe com uma cruel violência psicológica. Ela é apenas mais uma mulher que amarga a violência doméstica calada e reprimida, ela pode ser qualquer uma, ela pode ser todas as mulheres que são ou já foram vítimas desta violência covarde. Esta mulher é como Ruth (MaryLouise Parker) de Tomates Verdes Fritos (Jon Avnet, 1991) e Celie (Whoopi Goldberg) de A Cor Púrpura (Steven Spielberg, 1985), com a diferença de que não tem amigos para ajudá-la a enfrentar a situação nem pode recorrer à fé, já que não recebeu uma formação religiosa de seus pais; ela só pode contar com ela mesma. Para ela, entregar-se à polícia e ser presa significa um ato de revolta e libertação. Quando ela diz “prenda-me” a Pontoise, ela quer dizer, na verdade, “liberta-me”: liberta-me da dor, liberta-me do sofrimento, liberta-me da passividade, liberta-me da impotência, liberta-me da culpa. Sim, culpa. Apesar de ser ela a vítima, a culpa de ter matado seu marido nunca a deixou em paz, levando-a até a defendê-lo em alguns momentos na delegacia durante seu depoimento, ato comum em vítimas de violência doméstica.


Com belas atuações e uma excelente interação entre Marceau e Miou-Miou, mais do que um filme-denuncia que nos faz refletir sobre a violência doméstica, Arrêtez-moi (no original) é um grito desesperado de socorro de uma mulher humilhada, disposta a pagar o preço que for para recuperar a sua sanidade e a sua dignidade. Uma obra ao mesmo tempo delicada e brutal, como somente os franceses sabem fazer, que merece ser vista por todos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Prenda-me (Arrêtez-moi)

França - 2012. 99 minutos.

Direção: Jean-Paul Lilienfeld

Com: Sophie Marceau, Miou-Miou e Marc Barbé.


Nota: 4

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