sexta-feira, 7 de março de 2014

Walt nos Bastidores de Mary Poppins

A trajetória para que o livro “Mary Poppins” (primeiro de uma série de oito), da escritora australiana Pamela Lyndon Travers, publicado em 1934, se transformasse em filme foi árdua e longa. O que para muitos autores era um sonho, Travers considerava um verdadeiro pesadelo. Levar a babá mágica às telas pelas mãos de ninguém menos que Walt Disney era quase um insulto à sua criadora, que tinha real desprezo pelas animações e personagens infantis da The Walt Disney Company. Disney travou uma batalha de 20 anos com Travers para convencê-la a lhe ceder os direitos para a adaptação cinematográfica. Após ferrenha insistência de Disney, o filme Mary Poppins finalmente saiu do papel em 1964 e obteve grande sucesso, tornando-se um clássico do cinema e da Disney. Walt nos Bastidores de Mary Poppins, de forma dramatizada, mostra justamente esse processo de produção do longa-metragem até a sua exibição na première em Hollywood, além de expor fatos que ocorreram na infância de P. L. Travers que a inspiraram a escrever sua primeira e mais famosa obra literária.


Na primeira cena do filme, conhecemos a pequena Helen “Ginty” Goff – nome verdadeiro de Travers – sentindo o vento em seu rosto em meio a uma bela paisagem campestre da Austrália, transparecendo muita paz e satisfação. Logo em seguida, a imagem de Helen se converte na imagem de Travers sentada numa poltrona, trancada em sua casa na Inglaterra, claramente inquieta e preocupada. Rígida, fechada, arrogante, mal humorada, agressiva e pouco flexiva: é assim que Travers é apresentada ao espectador. À medida que mergulhamos na vida de Helen Goff, começamos a compreender as atitudes da amargurada P. L. Travers. Durante toda a película, são traçados paralelos entre a infância e a vida adulta da autora na época da produção de Mary Poppins, intercalando-se as cenas de modo a delinear a tragédia formativa que moldou o seu comportamento dali em diante.

Quando Travers (interpretada brilhantemente pela versátil Emma Thompson) se vê sem dinheiro e prestes a perder a sua casa, finalmente aceita ir até Los Angeles por duas semanas para a aprovação do roteiro, onde se depara com um mundo alegre e colorido ao qual não está acostumada, sentindo-se incomodada e invadida. É aí que as pitadas de humor começam a ser introduzidas na trama. Paul Giamatti, que interpreta o motorista Ralph que a leva todos os dias para os estúdios Disney, é responsável por divertidas e emocionantes cenas com Travers. O primeiro encontro entre Travers e Walt Disney (vivido pelo ótimo Tom Hanks) foi bastante conflitante, e assim continuou até o fim do projeto. Muitas trocas de farpas permeavam a relação entre ambos, a começar pelo modo como se chamavam, exatamente do jeito que cada um detestava – Pamela e Sr. Disney. O que não percebiam é que possuíam a personalidade muito parecida, por isso não conseguiam se entender. Contudo, Walt conservava sua criança interior (vide a criação da Disneyland), enquanto Travers enterrou a sua há tempos junto com seus traumas familiares.


Havia sempre muitas divergências nas reuniões de roteiro entre os compositores Robert Sherman (B.J. Novak, da série The Office) e Richard Sherman (Jason Schwartzman, de Maria Antonieta – Sofia Coppola, 2007 e Moonrise Kingdom - Wes Anderson, 2012), o roteirista Don DaGradi (Bradley Whitford, de Perfume de Mulher - Martin Brest, 1992 e O Homem Bicentenário - Chris Columbus, 1999) e Travers, pois ela dificilmente aceitava o que lhe propunham, principalmente o filme ser um musical e ter animações que considerava tolas. “Mary Poppins é como se fosse da família!”, repetia Travers quando se desagradava com algo sugerido pelo trio e por Disney. O que o público vai descobrindo aos poucos é que Mary Poppins não é como se fosse da família, mas uma espécie de autobiografia de Travers, com personagens inspirados em pessoas que fizeram parte de sua infância, em especial sua tia Ellie (Rachel Griffiths, mais conhecida pelos seriados americanos Six Feet Under e Brothers & Sisters), fonte de inspiração da personagem-título, e seu pai, o gerente de banco Travers Robert Goff, que faleceu quando ela tinha sete anos, na pele de Colin Farrell (Pergunte ao Pó - Robert Towne, 2006 e O Sonho de Cassandra - Woody Allen, 2007). Da mesma maneira que para Travers, Mary Poppins era importante para Walt Disney não só pelo lado financeiro como também por uma causa familiar: uma promessa feita às filhas de que transformaria seu livro favorito em filme. De certa forma, tanto Travers quanto Disney tinham necessidade de provar sua capacidade aos outros – ele construiu um verdadeiro império onírico e empresarial, e ela uma personagem eterna, além de repetir em diferentes momentos a frase “sou perfeitamente capaz de fazer isso”. Outro ponto em comum entre os dois é a forte a relação entre autor e criatura, já que Disney revelou a Richard Sherman em um momento do longa que era muito apegado ao Mickey e se arrependeria muito se tivesse aberto mão do rato, símbolo de sua empresa, assim como Travers era apegada à sua querida Mary Poppins e não queria intervenções exageradas em sua história.



Por ser um filme produzido pelos estúdios Disney, já era esperado que seu criador fosse engrandecido. O competente roteiro de Kelly Marcel (co-roteirista do seriado Terra Nova e da adaptação de Cinquenta Tons de Cinza, e indicada ao BAFTA deste ano) e Sue Smith expressou somente qualidades de Walt Disney, com exceção do fato dele ser fumante, embora ele não apareça fumando propriamente. Há toda uma fantasia em volta do homem que construiu o reino encantado dos desenhos animados. Somente através dos detalhes e sutilezas podemos desvendar gradualmente o outro lado de Walt – o empresário que conseguiu erguer um poderoso e sólido império, que continua crescendo mesmo após o seu falecimento. É um homem de indiscutível valor, mas não imaculado. Sua obstinação e teimosia o levaram a produzir Mary Poppins da maneira como planejava desde o início, mesmo contra a vontade de Travers, tanto que ela o proibiu de realizar qualquer continuação utilizando sua babá mágica pelo resultado final não tê-la agradado. Ademais, são trabalhadas na película indicações imagéticas de que a bondade de Walt e sua fábrica de sonhos conseguiram surpreendentemente abrandar o temperamento de Travers, reforçando ainda mais a generosidade e integridade do pai do Mickey.

Dirigido por John Lee Hancock (do indicado ao Oscar 2010 Um Sonho Possível, que premiou Sandra Bullock como melhor atriz), Walt nos Bastidores de Mary Poppins não é apenas um filme sobre a produção de uma obra eterna nem somente uma biografia de uma escritora, é também um filme sobre saudade, sonhos, perdão e superação. O título original Saving Mr. Banks não poderia ser mais adequado, pois, ao contrário da dura realidade vivida pela pequena “Ginty” de perder o pai tão cedo, o patriarca fictício Sr. Banks foi salvo por Mary Poppins, dando ao enredo um final feliz por meio da magia, especialidade de Walt Disney. É deveras estranho que o filme não tenha recebido mais indicações ao Oscar além de Melhor Trilha Sonora, assinada por Thomas Newman, que também compôs para filmes como À Espera de um Milagre (1999), Procurando Nemo (2003) e 007 - Operação Skyfall (2012). Emma Thompson e Tom Hanks mereciam ser indicados por suas excelentes atuações, assim como o longa merecia um lugar entre os indicados a Melhor Filme e Melhor Figurino, como ocorreu no BAFTA.



Por fim, Walt nos Bastidores de Mary Poppins é uma linda homenagem a uma autora, a um clássico eterno - merecedor das 13 indicações ao Oscar que recebeu na época, tendo vencido em 5 categorias - com músicas e personagens inesquecíveis que encantaram e continuam encantando diversas gerações, ao cinema e, claro, ao homem que tornou esse sucesso possível. É um filme essencial aos fãs de Mary Poppins e cinéfilos. O que mais se pode dizer? Supercalifragilisticexpialidocious!


*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks)

Austrália/EUA/Reino Unido - 2013. 125 minutos.

Direção: John Lee Hancock

Com: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Paul Giamatti, Ruth Wilson, Rachel Griffiths, B.J. Novak, Jason Schwartzman e Kathy Baker.


Nota: 5

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