domingo, 13 de abril de 2014

Coletiva de Imprensa de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Na sexta-feira, dia 4 de abril, o diretor Daniel Ribeiro e os atores Ghilherme Lobo, Fabio Audi e Tess Amorim estiveram presentes na coletiva de imprensa do premiado longa-metragem Hoje Eu Quero Voltar Sozinho em um cinema no bairro Botafogo, no Rio de Janeiro, que ocorreu logo após a exibição do filme para os jornalistas.

Daniel Ribeiro iniciou o bate-papo respondendo sobre de onde surgiu a ideia de fazer o longa ou se ela surgiu apenas depois do sucesso do curta-metragem de 2010em que se baseia, intitulado Eu Não Quero Voltar Sozinho. Ele conta que desejava ter a história do menino cego que se descobria gay como seu primeiro longa, mas que por ser estreante não conseguiria patrocínio; então decidiu fazer o curta antes, que acabou caindo no Youtube e agradando muito o público. Com isso, ele precisou criar um novo roteiro para o longa, que precisava ser ao mesmo tempo diferente e parecido com o curta. Ribeiro explica que “o objetivo inicial era criar um filme que se comunicasse com muita gente e que gerasse um debate sobre a sexualidade, sobre de onde vem a nossa sexualidade, com esse personagem cego, que nunca viu um homem nem uma mulher e é gay. Como a sexualidade é muito atrelada à visão, eu queria usar um personagem que não tinha esse sentido para gerar esse estímulo. Para isso, era necessário um filme que dialogasse com muita gente. Eu também queria falar de temas universais: o primeiro amor, o primeiro beijo, a adolescência, pela qual todos passam. Todos os fatores que eu queria retratar no filme acabaram levando para personagens mais leves e que tratavam dessas questões de forma mais delicada”.



Sobre o sucesso em Berlin (o filme ganhou o Teddy Award, o prêmio de Melhor Filme da mostra Panorama pela FIPRESCI e o 2º lugar do Prêmio do Público na Berlinale 2014), Ribeiro se diz muito contente, principalmente por ser algo inesperado, já que o filme é pequeno, não possui atores conhecidos nem uma grande verba, que foi de R$ 2,25 milhões. Além de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, três outras produções brasileiras participaram do Festival de Berlim deste ano, sendo duas com temática homossexual (Praia do Futuro e Castanha), o que Ribeiro chamou de “invasão gay brasileira em Berlim”. Ele discorre sobre o aumento de filmes nacionais sobre o tema, pois ajuda a desmistificá-lo e a acostumar o público, mostrando toda a diversidade que existe por trás do preconceito.

Perguntados sobre como foi voltar a interpretar os personagens Giovana, Leonardo e Gabriel três anos depois, a atriz Tess Amorim falou sobre a oportunidade de poder ter uma maior preparação para o longa e da retomada da intimidade criada no curta entre os três, enquanto os atores Ghilherme Lobo e Fabio Audi enfatizaram a oportunidade de poder entender e desenvolver melhor os personagens no longa, já que o curta não permitiu por ter sido uma produção muito rápida, que não permitiu muitas preparações. Quanto à questão do possível preconceito, o trio respondeu que desde o curta não sofreram preconceito algum em relação a seus personagens, com exceção de uma única piadinha no colégio que foi logo reprimida pelos outros colegas de classe de Lobo.


Ribeiro e Tess articularam sobre a construção da personagem Giovana, que sempre se dava mal em ambos os roteiros (do curta e do longa) e era xingada pelo fãs na época do curta por atrapalhar o romance entre os dois meninos. Ribeiro diz que “Tess arrasou” e compensou Giovana fazendo dela uma personagem leve e divertida. Tess completa afirmando que o longa proporcionou a Giovana mostrar o amor fraternal e o seu cuidado com seu melhor amigo Leo, além de seu lado extrovertido. Lobo explica como foi a preparação para viver um menino cego e que aprendeu a guiar e ser guiado como um cego, e a ler e a escrever em braile com uma deficiente na biblioteca braile de São Paulo na época do curta em um –surpreendente – único dia e que retomou a técnica para o longa, pois queria que houvesse verossimilhança nas cenas em que Leonardo utilizava a máquina de escrever. Lobo diz também que por ser muito diferente de Leo, precisou buscar inspirações em pessoas próximas para interpretar um menino reprimido pela mãe e que sempre pensou na questão do olhar caso viesse a viver um personagem com deficiência visual em sua carreira. “Ele tinha 14 anos quando fez o teste e veio com aquele olhar pronto. Foi impressionante. (...) O Ghilherme tem uma coisa muito instintiva de observação, acho que ele aprende instintivamente muito fácil”, elogia Ribeiro. Por sua vez, Fabio Audi diz que quis dar ao personagem Gabriel características típicas de um menino tímido do interior, que anda de bicicleta e brinca como um moleque.


Quanto à trilha sonora, Ribeiro declara que escolheu as músicas com o montador, Cristian Chinen, e que, com exceção de Belle & Sebastian e das clássicas (que já estavam indicadas no roteiro), todas as outras músicas foram escolhidas na hora da montagem. Ele afirma também que fez um filme para si, que gostaria de ter visto quando tinha 16 anos, por isso quis ser o mais honesto possível em vez de pensar muito se algo funciona ou não. Além disso, admite que o vídeo do curta ter vazado no Youtube ajudou muito na divulgação e sucesso do filme pelo mundo, assim como as redes sociais e o contato com o público. Comentou, ainda, sobre o festival no México, que as pessoas, fãs do curta, tietavam muito o trio de atores nas ruas e na porta do hotel; disse que foi interessante, apesar de inesperada, essa transferência do virtual para o real. Com isso e a explosão em Berlim, Ribeiro está ansioso para saber qual será a reação do público brasileiro ao filme, embora saiba que a disputa com os gigantes Noé, Capitão América 2: O Soldado Invernal e Rio 2 nos cinemas será grande. Ele ainda atentou para o curioso fato de fãs fazerem campanhas online para que o filme seja exibido em suas cidades, em especial a pequena cidade de Mossoró (RN), que pediu a construção de um cinema.



Ao fim das entrevistas, Ribeiro articula acerca do atual cenário do cinema nacional e diz que há muitos fundos setoriais para cultura hoje em dia no Brasil e que há espaço para todo tipo de filme, desde o blockbuster até o mais alternativo. Ele considera positivo haver grandes comédias brasileiras para brigar com os blockbusters estrangeiros, pois “ajuda a estimular as pessoas a verem filmes brasileiros”.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

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