sexta-feira, 11 de abril de 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Baseado no curta de 2010 Eu Não Quero Voltar Sozinho, estreia no dia 10 de abril o primeiro longa-metragem de Daniel Ribeiro, que, em 2008, foi vencedor do Urso de Cristal de melhor curta-metragem no 58º Festival de Cinema de Berlim e do Troféu Menina de Ouro de melhor diretor de curta metragem no 1º Festival Paulínia de Cinema com o curta Café Com Leite. O filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho aborda a fase de transição pela qual o adolescente Leonardo (Ghilherme Lobo) está passando. Por ser cego, ele precisa lidar com a superproteção da mãe, com as implicâncias de alguns colegas de classe e com suas limitações enquanto deseja conquistar sua independência. Embora Leonardo tenha a seu lado sua melhor amiga de infância Giovana (Tess Amorim), é com Gabriel (Fabio Audi), o novo aluno da escola, que ele vai descobrir novos sentimentos e aprender outras maneiras de ver o mundo.


Por possuir maior duração, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho dá maior aprofundamento aos personagens que seu curta originário, além de mostrar novos personagens que se tornam importantes para a trama. No curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, Leonardo parece não se importar em ser uma pessoa bastante dependente, como é possível perceber através de sua afirmação de que ser cego tem a vantagem de receber muitos favores das pessoas. O oposto ocorre no longa, em que o protagonista busca desesperadamente a sua independência. Assim, a mudança de título traduz muito bem a mudança de atitude de Leonardo no roteiro, cujo responsável é também Daniel Ribeiro.

Além da independência, a película aborda ainda os temas amizade, primeiro amor, primeiro beijo, homossexualidade, cegueira, superproteção e bullying; sempre com muita leveza e delicadeza, que é o que cativa o público. Podemos observar questões similares às de Leonardo na personagem Joon (interpretada por Mary Stuart Masterson) do longa Benny & Joon - Corações em Conflito (1993), de Jeremiah S. Chechik. Assim como Leonardo, Joon não aguenta mais a superproteção do irmão, que não a deixa sair ou ficar sozinha em casa devido à sua deficiência mental, quer ter maior independência e descobre sentimentos até então desconhecidos ao conhecer o excêntrico Sam (Johnny Depp).


Pode-se dizer que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é uma espécie de “primo” de As Vantagens de Ser Invisível (Stephen Chbosky, 2012), já que, substituindo a cegueira por problemas psiquiátricos, trata dos mesmos assuntos e possui como centro do plot um trio de amigos com um romance entre dois deles. Até a frase representativa do filme de Chbosky – “Somos todos infinitos” (tradução de “We are all infinite”) – é passível de uma nova interpretação no longa de Ribeiro: que Leonardo, apesar de sua deficiência, possui uma gama infinita de possibilidades à sua frente e à sua volta, e Gabriel o ajuda a explorá-las. Inclusive, as cenas finais de ambos os filmes são parecidas e denotam liberdade e felicidade.
Outro ponto interessante levantado por Ribeiro em sua obra é a descoberta da homossexualidade, pois a sexualidade humana é despertada primeiramente pela visão. No entanto, como Leonardo não enxerga, a sua atração – e consequente paixão – por Gabriel surge de outras maneiras, através dos outros sentidos, quando ele ouve a sua voz, segura seu braço para ser guiado na rua ou cheira seu casaco. Toda a trajetória do envolvimento entre Gabriel e Leonardo é tão natural e bela que deixamos de lado o fato de ser um casal homossexual e tratamos aquela relação apenas como um amor juvenil como outro qualquer. Esta é uma tendência extremamente positiva que os filmes com temática GLBTS têm seguido para tentar acabar com o preconceito (a exemplo de Além da Fronteira e Azul é a Cor Mais Quente), e parece que tem surtido efeito, já que é cada vez mais frequente.


Vencedor do Teddy Award, do prêmio de Melhor Filme da mostra Panorama pela FIPRESCI e do 2º lugar do Prêmio do Público na Berlinale 2014, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho mostra uma trama repleta de questões pelas quais todo mundo já passou, está passando ou ainda vai passar durante a adolescência, despertando a identificação do público com diversas situações protagonizadas pelo trio de ouro. Difícil não se emocionar com uma história tão leve e verdadeira, que nulifica qualquer tipo de preconceito. As interpretações convincentes, principalmente de Ghilherme Lobo como um garoto cego, a fotografia suave e a trilha sonora agradável e acertada completam o mérito do filme. Em sua estreia nos cinemas, Daniel Ribeiro atesta sua competência como diretor e roteirista, e nos deixa ansiosos por seus próximos trabalhos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Brasil - 2014. 96 minutos.

Direção: Daniel Ribeiro

Com: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano, Eucir de Souza, Egrei e Isabela Guasco.


Nota: 5

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...