segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lulu, Nua e Crua

Responsável pela direção de diversos documentários, a cineasta islandesa Sólveig Anspach escolheu os sentimentos e dilemas femininos como tema central de seus longas-metragens. Pela segunda vez eleita para encarnar a protagonista (a primeira foi em Haut les Cœurs!, de 1999, que lhe rendeu o César 2000 de Melhor Atriz), Karin Viard é Lulu, uma mulher acomodada a seu casamento infeliz e à dedicação aos filhos, que decide, por um impulso após uma entrevista de emprego frustrada, largar tudo por alguns dias para dar um colorido à sua vida, que encontra-se em tons de cinza. Durante seus dias de liberdade, ela conhece três pessoas que serão marcantes para sua jornada rumo ao redescobrimento de si mesma: um homem sobre os cuidados dos irmãos, uma garçonete maltratada pela patroa e uma senhora idosa que aguarda tediantemente a sua morte. Lulu, Nua e Crua é o que podemos chamar de road-movie sem amarras – não se prende a estradas, veículos ou convenções, apenas segue seu curso, sem se fixar a lugar nenhum. É a busca pela felicidade e o contato com o íntimo. É o conhecer-se em sua plenitude. É a afloração da feminilidade em sua forma mais pura.


Em uma das melhores representações de sua carreira, que a fez ganhar o prêmio de interpretação feminina no Festival de Sarlat 2013, Karin Viard emociona e diverte o espectador com sua encantadora Lucie, que de tanto ser chamada de Lulu, esqueceu-se de sua verdadeira identidade. Sem um teto e sem dinheiro, ela precisa contar com a ajuda alheia para se manter e acaba criando laços por onde passa, encontrando em estranhos o carinho e a amizade de que tanto precisava. Assim acontece, de maneira similar, com Bettie, personagem da eterna musa Catherine Deneuve, em Ela Vai (2013), de Emmanuelle Bercot, que, como Lulu, também se encontra sem vitalidade e decide partir sem rumo certo. Outro ponto em comum entre os dois filmes é a presença da atriz Claude Gensac, que interpreta, com a mesma competência, a mãe de Bettie no longa de Bercot e a senhora idosa no longa de Anspach.


Bouli Lanners (que também marcou presença no Festival Varilux de Cinema Francês 2014 nos filmes A Grande Volta e Uma Juíza sem Juízo, em uma ponta) é mais um destaque de Lulu, Nua e Crua na pele de Charles, um homem solitário e desanimado com a vida, que está sempre acompanhado dos dois irmãos – a dupla de atores Pascal Demolon e Philippe Rebbot, que dá um toque de humor à película. Apesar do primeiro contato bastante estranho, Charles e Lulu descobrem juntos uma nova e alegre sintonia, que os ajuda a recuperar o gosto pela vida.

Com detalhes visuais pertinentes às cenas e um final delicadamente singelo, Sólveig Anspach conseguiu construir uma história tocante e envolvente, com a qual muitas mulheres podem se identificar. Acompanhamos a empreitada de Lulu com atenção e empatia, observando sua evolução durante toda a trama. Somos testemunhas da transformação de uma mulher frágil e insegura em uma mulher firme e confiante. A borboleta finalmente se desnuda de sua crisálida e alça voo, sem vergonha de ser feliz.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival Varilux de Cinema Francês 2014

Lulu, Nua e Crua (Lulu Femme Nue)

França - 2014. 87 minutos.

Direção: Sólveig Anspach

Com: Karin Viard, Bouli Lanners, Claude Gensac, Marie Payen, Nina Meurisse e Patrick Ligardes.


Nota: 4

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