quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Homem Duplicado

Denis Villeneuve é um cineasta movido a enigmas, que assumidamente gosta de se arriscar em suas produções. Seu filme mais conhecido e aclamado, Incêndios (2010), uma adaptação da peça de Wajdi Mouawad, apresenta uma complexa trama sobre a busca de um irmão e uma irmã pelo pesado passado de sua mãe. Em seu primeiro longa em inglês Os Suspeitos, que marcou sua estreia em Hollywood em 2013, o ponto central é também uma busca, mas de um pai que recorre até o último recurso para encontrar a sua filha que desapareceu. Em seu mais recente filme, O Homem Duplicado, baseado no livro homônimo de José Saramago, a história, mais uma vez, gira em torno de uma busca, porém dessa vez por si próprio, por sua identidade perdida. Enquanto o primeiro é prioritariamente um drama familiar e de guerra e o segundo é um suspense dramático policial, o último se mostra um thriller cheio de mistérios que, à primeira vista, são difíceis de serem resolvidos, mas que basta prestar atenção aos detalhes para facilmente solucioná-los. É importante ressaltar que o filme não está na ordem cronológica dos acontecimentos e que foi delineado para ser um quebra-cabeças, um enigma que deve ser desvendado pelo espectador através das pistas dadas durante toda a projeção. As cenas iniciais são essenciais para descobrir os segredos do enredo, logo a atenção para elas deve ser redobrada.


O filme nos apresenta Adam Bell (interpretado por Jake Gyllenhaal, que participou antes de Os Suspeitos), um pacato professor de história desiludido com a vida, que descobre a existência de um homem igual a ele assistindo a um filme por acaso. Ele fica obcecado em encontrar o seu sósia e o caos se instala em sua vida. Anthony Claire, sob o nome artístico de Daniel Saint Claire, também vivido por Gyllenhaal, é a assustadora cópia andante de Adam. Com uma única e mínima diferença física entre eles, por assim dizer – o modo como cada um arruma o cabelo –, Adam e Anthony não poderiam ser mais díspares. Apesar disto, a namorada do primeiro (Mélanie Laurent, de Bastardos Inglórios) e a esposa grávida do segundo (Sarah Gadon, de Cosmópolis) são bastante parecidas fisicamente, apesar de possuírem temperamentos distintos.

Com um clima bastante lynchiano, O Homem Duplicado possui diversos aspectos em comum com obras como Cidade dos Sonhos (consequentemente também Estrada Perdida) e Império dos Sonhos. A direção de Villeneuve versa com o estilo do polêmico David Lynch, transformando a história de Saramago numa película que permite diferentes interpretações e a criação de diferentes teorias por parte do espectador; e é isso que a torna tão interessante. Personagens ditos do outro mundo por Lynch, aqueles que aparecem rapidamente durante a trama, também funcionam aqui como alertas para o protagonista (provocando alguma mudança em sua vida) e pistas para quem assiste. A simbologia da chave aqui presente é a mesma que em Cidade dos Sonhos, e Danny Boyle a expressa muito bem em seu longa Em Transe (2013) através de uma frase dita pela personagem de Rosario Dawson: “Uma lembrança aprisionada libera energia para romper a fechadura”.


Por outro lado, a simbologia principal do filme de Villeneuve vem de um animal peculiar: a aranha. Sendo a responsável por tecer a realidade para algumas culturas e por tecer a aparência ilusória dessa mesma realidade para outras, a introdução da aranha como elemento transitório em Enemy (no original) não poderia fazer mais sentido. A aranha representa, neste caso, para Villeneuve o que as cores azul e vermelho representam para LynchAlém disso, a aranha também simboliza a arrogância castigada pelos deuses na Grécia e nas culturas do Médio Oriente e do Mediterrâneo e possui obsessão pelo centro (como pode ser vista em sua teia), que absorve grande introspecção e representa o ser narcisista para a psicanálise. Na ótima cena do acidente de carro, há um close na janela quebrada que, não coincidentemente, é em forma de teia de aranha.



Nenhum componente está presente no longa à toa, dos menores detalhes ao que parece óbvio ou irrelevante. Em uma das aulas de Adam, há uma citação de Hegel que diz que os maiores eventos do mundo acontecem duas vezes, e uma adição à mesma feita por Karl Max, que afirma que a primeira é uma tragédia e a segunda é uma farsa. Outra coisa citada por Adam em suas aulas é a repetição de padrões, além do quadro negro, cujos conteúdos escritos são o caminho para desvendar o enigma proposto por Villeneuve, com certas mudanças da primeira para a segunda cena em que Adam leciona. Há, também, detalhes marcantes nas duas cenas da locadora – a primeira, quando Adam aluga o DVD que muda sua vida, tem como música ambiente “The Cheater”, de Bob Kuban & The In-Men, que fala sobre um homem infiel que não respeita as mulheres comprometidas e as trata mal após conseguir o que quer; e a segunda, quando ele vai procurar outros dois filmes em que Anthony atuou, o cartaz do filme Attack of the 50 ft. Woman (A Mulher de 15 Metros, em português), que conta a história de uma mulher traída que fica gigante e quer se vingar do marido infiel, está pendurado ao lado do balcão. A cena em que Adam visita sua mãe, numa participação especial de Isabella Rossellini (que teve um caso amoroso com David Lynch, que fez sua carreira decolar em 1986 com a participação em Veludo Azul), também é fundamental para o entendimento do que está acontecendo com a mente confusa do protagonista.


Para instaurar um clima de mistério, Villeneuve escolheu dar um tom amarelado à fotografia, que lembra a de Clube da Luta (1999), de David Fincher (com quem Gyllenhaal já trabalhou em 2007, em Zodíaco), outro longa que serviu de inspiração para Enemy. Além da frase memorável sobre as regras do Clube da Luta cair como uma luva para um seleto clube erótico secreto que nos é apresentado logo no início do filme e lembrado no final, tanto Adam quanto o personagem de Edward Norton possuem uma dualidade, um conflito psicológico de identidade e sofrem de tensão paranoica.

Por fim, Denis Villeneuve nos presenteia com uma obra surrealista repleta de mistérios, com interessantes discussões metafísicas, onde tudo está interligado no roteiro do espanhol Javier Gullón. “O caos é uma ordem por decifrar”. A própria frase introdutória de O Homem Duplicado já avisa ao espectador que ele terá pela frente um mistério caótico para solucionar. Então, se você gosta de filmes fáceis e procura por respostas, escolha outro filme, pois este - assim como Donnie Darko (Richard Kelly, 2001), também protagonizado por Jake Gyllenhaal, e Sr. Ninguém (Jaco Van Dormael, 2009) – somente te dará perguntas.


O Homem Duplicado (Enemy)

Canadá / Espanha - 2013. 90 minutos.

Direção: Denis Villeneuve

Com: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon e Isabella Rossellini.


Nota: 4

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