quinta-feira, 15 de maio de 2014

Uma Juíza sem Juízo

Partindo da premissa de uma relação deveras improvável, Uma Juíza sem Juízo apresenta a evolução de Albert Dupontel à frente da direção e do roteiro, tanto que foi ganhador do prêmio César 2014 de Melhor Roteiro Original e concorreu também a Melhor Diretor e Melhor Ator. Com claras inspirações nas obras de Jean-Pierre Jeunet, em especial Eterno Amor, em que interpretou o papel de Célestin Poux em 2004, o quinto longa-metragem de Dupontel apresenta marcas registradas de Jeunet, como a fotografia amarelada, o humor infantil em personagens caricatos e a inserção de cenas dentro de outras cenas nos cantos da tela (mostrando um fato passado ou um sofrimento por antecipação de algo que pode acontecer na vida de alguma personagem no futuro), diferenciando-se pelo acréscimo de uma pequena dose de violência física, com toques de sadismo e psicopatia temperados com humor ácido. Em seu quarto filme, O Filho da Mãe (2009), já era possível perceber certas influências de Jeunet na direção de Dupontel, porém é em seu presente trabalho que conseguimos observar mais nitidamente a utilização direta de referências, já citadas anteriormente.


Solteira convicta e sem filhos, Ariane Felder (interpretada maravilhosamente por Sandrine Kiberlain, que levou para casa o prêmio César 2014 de Melhor pelo papel) é uma jovem juíza conhecida por sua seriedade e rigidez. O que ela jamais imaginaria é que engravidaria sem lembrar como aconteceu e muito menos quem é o pai do filho que está esperando. Depois de investigar, Ariane tem desagradáveis surpresas que mudarão não só a sua vida como a vida de muitas pessoas, principalmente a do homem que lhe engravidou.

Desde que Ariane descobre que vai dar à luz um filho de um criminoso dito cruel e perigoso chamado Bob (vivido por Albert Dupontel, que também roteirizou e dirigiu o longa), ela não consegue aceitar a ideia de ter e criar a criança, tentando provocar um aborto de uma forma um tanto quanto inusitada, com um interessante discurso de sentença antes da prática em que compara a sua gravidez a uma invasão de propriedade privada. Salva por Bob, Ariane se vê presa por ele em sua própria casa, passa a conhecê-lo melhor e até o ajuda a tentar encontrar uma falha em seu dossiê, já que ele insiste que não cometeu o crime grotesco de que é acusado. Enquanto Bob permanece na casa de Ariane, diversas reportagens sobre o crime e seu desaparecimento da prisão são exibidas em diferentes canais de televisão, com uma participação especial de Jean Dujardin (O Artista e Os Infiéis), que surge como intérprete de sinais de surdos-mudos galhofeiro para um jornal televisivo. Outro personagem engraçado é o advogado gago Trolos, que mais atrapalha do que ajuda seus clientes, vivido por Nicolas Marié, que possui uma parceria de quatro filmes com Dupontel e também já participou de uma produção do mestre JeunetMicMacs - Um Plano Complicado.


Dupontel faz uso do extraordinário de forma divertida (outra característica dos filmes de Jeunet) para compor a cena em que Bob, desesperado após a leitura completa de seu dossiê por Ariane sem encontrar nenhum furo, começa a imaginar como o crime que insiste não ter cometido poderia ter ocorrido na realidade, ao mesmo tempo em que narra tais versões absurdas para a juíza. Outra cena marcante da película é a que aponta a mudança no comportamento de Ariane em relação a sua gravidez, em que, imageticamente, de maneira bela e delicada, seu útero é comparado ao universo que envolve o bebê. Já o clímax da trama ocorre no julgamento de Bob, cena divertidíssima em que Ariane toma uma posição inimaginável para uma meritíssima juíza.


Além de vencer dois prêmios César e concorrer a outros dois supracitados, Uma Juíza sem Juízo ainda entrou na competição nas categorias de Melhor Montagem e Melhor Filme, concorrendo com nomes de peso, como O Passado, Azul é a Cor Mais Quente, Eu, Mamãe e os Meninos e A Pele de Vênus. Diferentemente dos filmes anteriores de Dupontel, todos comédias pastelão, Neuf Mois Ferme (no original) é uma comédia leve e cativante, com arco dramático bem desenvolvido e interpretações competentes. Seu título em português pode passar uma ideia errada de sua personalidade, fazendo-o se parecer com mais um de seus antecessores na filmografia do diretor, mas seu conteúdo surpreende a quem lhe dá uma chance. Embora não possua uma história genial e utilize alguns clichês do gênero, Uma Juíza sem Juízo é um filme criativo e divertido que possui grande mérito. Albert Dupontel está no caminho certo.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival Varilux de Cinema Francês 2014

Uma Juíza sem Juízo (Neuf Mois Ferme)

França - 2011. 82 minutos.

Direção: Albert Dupontel

Com: Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié, Philippe Duquesne, Philippe Uchan e Jean Dujardin.


Nota: 4

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