quinta-feira, 8 de maio de 2014

Uma Viagem Extraordinária

Quem foi ao Instituto Moreira Sales assistir ao novo filme do diretor francês Jean-Pierre Jeunet no segundo dia do Festival Varilux de Cinema Francês (11 de abril), intitulado Uma Viagem Extraordinária, teve o prazer de participar de um debate após a sessão com o próprio, além de poder apreciar, antes do filme, o seu curta-metragem Foutaises, de 1989, o quarto de sua carreira, que ganhou, inclusive, o prêmio César de curta-metragem no mesmo ano. Podendo ser traduzido livremente como “Futilidades” ou “Bobagens”, o curta é protagonizado pelo ator Dominique Pinon, que iniciou a parceria com Jeunet justamente neste projeto, contando e mostrando de forma descontraída e divertida coisas de que gosta e de que não gosta, das mais simples às mais delicadas, propalando os gostos do próprio diretor e roteirista para a câmera. É através deste curta que temos contato direto com o que se tornaria uma marca registrada nas obras posteriores de Jeunet, principalmente na mais conhecida e amada delas – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Tais detalhes de bobos e fúteis não têm nada, pois são essenciais para o pleno entendimento das sensíveis e excêntricas personagens do mestre Jeunet.


Uma Viagem Extraordinária, adaptação do livro “As Obras-Primas de T.S. Spivet” (The Selected Works of T.S. Spivet), do escritor estadunidense Reif Larsen – que confessou a Jeunet que, ao ver sua obra-prima Amélie, teve a impressão de que alguém havia coçado a sua cabeça para fazer este filme –, é uma história tipicamente americana, ambientada numa cidadezinha de Montana. Filmado no Canadá por questões de liberdade laboral, o longa marca a estreia de Jean-Pierre Jeunet na utilização da tecnologia 3D (com a mesma equipe responsável pelo também primeiro trabalho em 3D de Martin Scorsese, A Invenção de Hugo Cabret) e o tira consideravelmente de sua zona de conforto, com três características que podem causar um estranhamento inicial no público: uma trama que se passa fora da França, com uma cultura bastante diferente e uma língua que ele não domina. Porém, o diretor tirou de letra o desafio, como fez em 1997 com o hollywoodiano Alien - A Ressurreição, curiosamente bem recebido pelos franceses. Os efeitos 3D têm bom funcionamento em alguns momentos, fazendo toda a diferença em certas cenas, mas em outros não é quase percebido. O problema pode estar na qualidade da transmissão e dos óculos distribuídos nos cinemas, como observado por Jeunet no debate, que afirmou ter tido total dedicação ao 3D nas filmagens, chegando a refazer cenas para que o resultado final fosse perfeito. Embora Uma Viagem Extraordinária seja o trabalho mais realista de Jeunet, inclusive no que diz respeito à fotografia mais próxima do real, ainda assim está inserido dentro do que ele chama de “realismo poético”, com seus incríveis detalhes e traços característicos, presentes nos 105 minutos de fantasia, emoção e aventuras, que vão desde viajar escondido num trem de carga e provar pela primeira vez um cachorro-quente a dar uma entrevista a um tendencioso programa de televisão.


T.S. Spivet é um menino de dez anos superdotado e apaixonado por ciência que decide fugir de casa e cruzar os Estados Unidos para receber um importante prêmio científico em Washington. Sua pouca idade e um pesado segredo que carrega são a grande surpresa pela qual ninguém esperava. Kyle Catlett (da série americana The Following) interpreta o gênio mirim T.S., cuja natureza é bastante parecida com a sua, o que o levou a querer o papel e a consegui-lo. O elenco ainda conta com a maravilhosa Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie e o veterano Dominique Pinon, em um pequeno papel que lembra o Popeye e desencadeia a segunda metáfora mais importante do filme, citada diversas vezes durante a fita, sobre “encontrar a sua árvore”, que pode ser entendido no contexto da trama como encontrar o seu porto seguro e um modo de superar os seus problemas, medos e traumas. A máquina de movimento perpétuo, invenção que rendeu o prêmio a T.S., mostra-se como a principal metáfora, que permeia toda a história. Ele viu seu irmão gêmeo Layton (vivido por Jakob Davies) morrer de uma forma brutal e se sente culpado por isso, tendo as suas invenções e a sua imaginação como válvulas de escape. Durante sua solitária viagem, seu enorme sentimento de culpa vem à tona e preenche tanto os seus pensamentos que não consegue mais guardar para si, fazendo da cena de seu difícil desabafo a mais emocionante do filme. Ele precisa superar o trauma e aprender a viver sem seu irmão, precisa entender que a vida, assim como a máquina que inventou, uma hora perde o seu movimento dito perpétuo e tem um fim, mas também possui um recomeço, lindamente demonstrado na cena final.


Com um roteiro de belos diálogos e frases marcantes – como “A sala cheira a couro molhado de uísque e fotografias velhas” e "Por que o homem produz tantos ângulos retos enquanto seu comportamento é tão tortuoso e ilógico?" – criados por Guillaume Laurant, que trabalha com Jeunet desde O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, uma trilha sonora harmoniosa (assinada pelo estreante canadense Denis Sanacore) e um visual lindíssimo (com referências imagéticas específicas a Eterno Amor e Ladrão de Sonhos), L'Extravagant Voyage du Jeune et Prodigieux T.S. Spivet (no original), evidencia mais uma vez o talento, a competência e a sensibilidade de Jean-Pierre Jeunet à frente de uma película. Apesar de ser um projeto cinematográfico um pouco inferior aos que o precederam, ainda assim é encantador, como não poderia deixar de ser. Um filme que une o sentimentalismo aflorado da narrativa ao mundo extraordinário da imaginação da alma infantil de Jeunet, tão genuíno quanto a jornada de T.S. Spivet.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival Varilux de Cinema Francês 2014

Uma Viagem Extraordinária (L'Extravagant Voyage du Jeune et Prodigieux T.S. Spivet)

França/Canadá - 2013. 105 minutos.

Direção: Jean-Pierre Jeunet


Com: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Jakob Davies, Niamh Wilson e Dominique Pinon.

Nota: 4

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