segunda-feira, 9 de junho de 2014

Oldboy - Dias de Vingança

Americanos e sua cansativa mania de fazer remakes, sempre achando que sua versão será melhor. Sim, porque se achassem que não conseguiriam superar o original, não o fariam. Não satisfeitos em fazer remakes de seus próprios filmes, eles descobriram as maravilhas do cinema além-Hollywood e resolveram começar a fazer remakes de filmes europeus e asiáticos – entre os quis podemos destacar os suecos Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011) de David Fincher e Deixa Ela Entrar (2008), e os japoneses O Grito (2004) e O Chamado (2002) –, de gêneros diversos, sendo alguns verdadeiras obras primas. Acontece que obras primas o são justamente por serem únicas e especiais, não sendo necessárias sequer continuações, que dirá um remake americano. É o caso de Oldboy (Oldeuboi, 2003), obra prima do diretor sul-coreano Chan-wook Park, que faz parte da Trilogia da Vingança junto com os excelentes Lady Vingança (2005) e Mr. Vingança (2002).


Com roteiro de Mark Protosevich (Eu Sou a Lenda e Thor) e direção de Spike Lee (Malcolm X e Milagre em St. Anna), Oldboy - Dias de Vingança elimina a genialidade do original Oldeuboi e cria uma nova história utilizando alguns pontos do mesmo, porém sob a ótica americana de violência gratuita, e tratando o incesto e o sadismo praticamente como piada. Toda a sutileza oriental que torna tanto a violência quanto os outros temas tão engenhosos na obra de Park foi cortada, já que houve uma transição total de uma cultura do misticismo, da filosofia e da disciplina para uma cultura consumista, agressiva e competitiva, com inserção de tecnologias e product placements (Apple, Google, Shazam, entre outras marcas) durante toda a projeção. Comparando-se os dois filmes, o pior corte feito por Lee foi o da hipnose, que era a base de todo o mistério por trás do encarceramento do protagonista e fez com que a história perdesse muito o sentido, e a pior mudança foi a solução de tal mistério, o motivo por trás de tudo, além do final, que passou de intenso e bizarro a masoquista, sem graça e clichê. Com isso, Spike Lee procurou amenizar a história original para que fosse mais palatável ao público americano, que dificilmente assistiria a um filme sul-coreano.


Na versão de Lee, Oh Dae-Su (Min-sik Choi) é Joe Douchett (Josh Brolin, de Onde os Fracos Não Têm Vez e Refém da Paixão), um homem grosseiro, bêbado e desagradável que não se importa com ninguém além dele próprio. Depois de uma noite regada a álcool, ele é sequestrado e mantido em cativeiro por 20 anos sem qualquer explicação, e solto da mesma maneira. Em liberdade, ele deseja vingança e inicia uma obsessiva busca por quem planejou a sua prisão torturante e por respostas, mas só encontra cada vez mais perguntas. Logo que começa sua busca, Joe conhece a bela e jovem assistente social Marie (Elizabeth Olsen, de Martha Marcy May Marlene e Poder Paranormal), com quem acaba se envolvendo, um antigo amigo que o ajuda (Michael Imperioli, em sua quarta parceria com Lee), e, mais tarde, um misterioso homem (Sharlto Copley, de Elysium e do super recente Malévola) que joga psicologicamente com ele e parece ser a chave do enigma que tenta desvendar há 20 anos.


Ao contrário da obra original, esta delimita bem os papéis de mocinhos e vilões, e procura mostrar como as pessoas podem se redimir através de Joe, que se transforma num homem melhor durante o cárcere por sua filha, e Marie, que de garota problemática se tornou uma cidadã que ajuda quem precisa. O próprio vilão, Adrien Pryce, é uma caricatura – afeminado, com sotaque britânico e uma enorme cicatriz –, não lembrando em nada o papel antes desempenhado por Woo-jin Lee. Apesar de tudo, Brolin e Olsen encarnam bem seus personagens, ao contrário de Imperioli, patético na pele do vilão, e de Samuel L. Jackson (de Pulp Fiction - Tempo de Violência e Django Livre), que, mais uma vez, se repete na atuação e fica completamente apagado.

Ademais, a sequência épica do embate entre o protagonista e dezenas de homens no prédio foi transformada numa simples cena violenta de luta mal feita de filmes de artes marciais americanos, assim como o momento memorável de tortura dentária com um martelo foi convertida em algo bastante inferior. Além disso, a excelente frase da parede do quarto de confinamento na versão de Park foi substituída por um pôster cínico de quarto de hotel por Lee. Há, ainda, um mistério no ar: como depois de 20 anos preso num quarto, sem contato nenhum com o mundo exterior, Joe consegue mexer sem dificuldades num iPhone e pesquisar no Google?


Vítima de um roteiro frágil e superficial e de uma direção indecisa e negligente, Oldboy - Dias de Vingança em nada lembra a criatividade, a força e a genialidade do autêntico sul-coreano. Somente na transição entre as culturas oriental e ocidental, inúmeras qualidades essenciais do filme de Chan-wook Park foram perdidas e outras, deveras enfraquecidas. Desse modo, Spike Lee conseguiu apenas realizar uma imitação barata de Oldeuboi, totalmente desnecessária. Se você, como eu que vos escrevo, tiver o longa original entre seus filmes favoritos, o conselho é de que não vejam este remake, a não ser que queiram sair indignados da sala do cinema. No entanto, se você ainda não teve o prazer de assistir à obra prima de Park, pode ir sem medo conferir a versão de Lee que com certeza irá te instigar a assistir à incrível película original.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Oldboy - Dias de Vingança (Oldboy)

EUA - 2013. 104 minutos.

Direção: Spike Lee

Com: Josh Brolin, Elizabeth Olsen, Sharlto Copley, Samuel L. Jackson e Michael Imperioli.


Nota: 2

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