quinta-feira, 24 de julho de 2014

Mesmo Se Nada Der Certo

Ex-baixista da banda irlandesa The Frames, John Carney tornou-se cineasta sem abandonar sua veia musical. Em 2007, lançou o longa-metragem de baixíssimo orçamento “Apenas Uma Vez” (Once), com seu roteiro e direção, tendo sido vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Falling Slowly"), do Independent Spirit Awards de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio do Público no Sundance Film Festival em 2008, e indicado a tantos outros. Com um roteiro criado a partir de canções românticas compostas por Glen Hansard, vocalista da banda The Frames e protagonista do filme em questão, e a inclusão da musicista tcheca Markéta Irglová como seu par, Carney conseguiu emocionar um grande público com sua história musical sobre dificuldades, oportunidades, relacionamentos e recomeços. Em 2014, ele retoma os mesmos temas com uma trama de estrutura similar que sua obra anterior, porém mais agitada por se passar na cidade de Nova York e com estrelas hollywoodianas e da cena musical no elenco.


Em “Mesmo Se Nada Der Certo”, Keira Knightley é Gretta, uma cantora britânica que vai acompanhar o namorado (vivido pelo vocalista da banda Maroon 5, Adam Levine) em uma turnê na cidade que nunca dorme e logo é abandonada por ele. Enquanto está num bar com um amigo (James Corden, do inédito “Apenas Uma Chance”), ela é descoberta por Dan (Mark Ruffalo), um produtor musical no fundo do poço, e suas vidas mudam completamente com a nova parceria formada entre ambos. Desta vez, Carney mostra os obstáculos que novos artistas precisam enfrentar para fazer parte da grande indústria musical e como é possível driblá-la com criatividade e ajuda dos novos meios. Assim como em “Apenas Uma Vez”, as inspirações das personagens para compor vêm sempre de relacionamentos anteriores fracassados e mal acabados. Se em “Once” (no original), a trilha sonora era inteira composta por baladas românticas, aqui ela é constituída por deliciosas músicas ao melhor estilo da banda sueca The Cardigans.


Ao mostrar Dan imaginando gradualmente uma produção elaborada ao escutar Gretta cantando em modo acústico, Carney quis exprimir como funcionam as mentes criativas dos artistas, inclusive de cineastas ao lerem um roteiro e o imaginarem como produto final, fazendo talvez um paralelo a si próprio, que possui uma dualidade musical e cinematográfica. A música também entra em “Begin Again” (no original) como um fator que aproxima pessoas, principalmente através das personagens Violet (Hailee Steinfeld, de “Bravura Indômita”) e Miriam (Catherine Keener, de "O Quarteto" e "Capitão Phillips"), respectivamente filha e ex-mulher de Dan, de quem se afastaram bastante após o divórcio. Aliás, é a música que dá ferramentas para Dan e Gretta para melhorarem suas vidas e criarem uma forte cumplicidade. O título original, apesar de simples, não poderia ser mais adequado.


Com muita delicadeza e sutileza, Carney une o cinema e a música – duas linguagens universais – em mais uma bela produção que prova que as melhores relações não precisam necessariamente ser românticas, mas que a amizade, a parceria e a confiança são a chave para um relacionamento harmônico. Embora haja uma possibilidade de romance no ar durante toda a película com uma atração implícita e reprimida (assim como em seu longa anterior), sua concretização não se mostra necessária para o desenvolvimento da trama e termina por ser a melhor escolha dos roteiristas John Carney e Anthony Bregman. Como dito por Dan em dado momento do filme, “a música transforma banalidades em pérolas”, e “Mesmo Se Nada Der Certo” é a pequena nova pérola de Carney.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again)

EUA - 2014. 104 minutos.

Direção: John Carney

Com: Keira Knightley, Mark Ruffalo, Hailee Steinfeld, James Corden, Adam Levine, CeeLo Green e Catherine Keener.


Nota: 4

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