segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Céu é de Verdade

Em 2010, foi lançado o documentário “O Menino Que Voltou do Céu”, baseado no livro homônimo publicado em 2004, contando a história de Alex, um menino de seis anos que sofreu um grave acidente com o pai, passou dois meses em coma com poucas perspectivas de sobrevivência e contou ter tido uma experiência no céu, envolvendo anjos e Jesus Cristo, quando acordou. Quatro anos depois, é a vez do drama “O Céu é de Verdade” chegar aos cinemas. Dirigido por Randall Wallace (“O Homem da Máscara de Ferro”, “Fomos Heróis” e “Secretariat - Uma História Impossível”), o filme apresenta a história de Colton Burpo (Connor Corum), um menino de quatro anos que visitou o céu enquanto passava por uma delicada cirurgia, deixando todos à sua volta desconfortáveis com os relatos de sua inusitada experiência. Embora incrédula no primeiro momento, a família de Colton se viu obrigada a acreditar nele quando este citou pessoas que não conheceu.


Apesar de insistir que não morreu, o que Colton teve foi uma experiência de quase morte, que para alguns não passa de alucinação, enquanto para outros é algo real e espiritual. Há uma discussão sobre isto no longa de Wallace através da figura de uma psiquiatra ateia procurada por Todd Burpo quando ainda não estava certo sobre acreditar ou não nas histórias contadas por seu filho. Responsável por escrever o best-seller homônimo à película, Todd, vivido por Greg Kinnear (“Pequena Miss Sunshine” e “Nação Fast Food - Uma Rede de Corrupção”), esteve inclinado a acreditar em Colton a todo momento, provavelmente por ser reverendo da igreja de sua pequena cidade do Nebraska e por se tratar de uma criança inocente de apenas quatro anos, ao contrário de sua esposa Sonja, representada por Kelly Reilly (“Sherlock Holmes” e “O Enigma Chinês”), que preferia considerar tudo imaginação de seu filho com receio de acreditar que fosse verdade, assim como os outros membros da igreja. O menino afirmou ter saído de seu corpo, assistido à sua própria cirurgia, visto seu pai rezando na capela do hospital e sua mãe telefonando na sala de espera, porém só foi levado a sério quando falou do encontro que teve com seu bisavô e sua irmã, que foi abortada nos primeiros meses de gestação e quase ninguém sabia.


Se por um lado o longa levanta o questionamento da fé, tanto por cristãos quanto por não-religiosos, e aponta para o fato de que a dúvida é causadora do medo, por outro mostra-se mais voltado para pessoas religiosas e tenta fazer com que os que não creem na religião cristã passem acreditar em sua doutrina de qualquer maneira. Outro ponto é que a descrição do céu feita por Colton é a versão ideal, e de certa forma fantasiosa, que ouvimos desde que nascemos: tudo lindo, claro, calmo, onde todos são jovens, com anjos cantando e uma imagem americana de um Jesus Cristo alto, branco de olhos claros, barba e cabelos compridos, contrariando a polêmica (e provavelmente verdadeira) teoria de que Jesus, na verdade, era negro. Em “Malcolm X” (1992), filme de Spike Lee, há uma interessante cena em que o protagonista, interpretado por Denzel Washington, questiona e explica ao pastor da prisão tal teoria de como Jesus não poderia ser branco, e sim, negro.


Com um roteiro cujo ritmo demora a engrenar e mais tarde começa a se arrastar, “O Céu é de Verdade” é um drama que vai agradar em maior parte o público cristão, que possui a crença da existência do céu e do poder da reza. Entretanto, por se tratar de uma história real envolvendo uma criança e possuir uma boa dose de emoção, também pode sensibilizar quem não possui a mesma fé. Por fim, “Heaven Is For Real” (no original) é uma tentativa de trazer a religião protestante para o cinema, apoiada em boas atuações, principalmente de Kinnear e Reilly, mas que peca na escolha de dramatizar demais em vez de discutir mais profundamente as teorias religiosas. Uma história bonita que apela totalmente para o lado emocional de seu público.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

O Céu é de Verdade (Heaven Is For Real)

EUA - 2014. 104 minutos.

Direção: Randall Wallace

Com: Connor Corum, Greg Kinnear, Kelly Reilly, Thomas Haden Church, Margo Martindale e Lane Styles.


Nota: 3

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