sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Espelho

A função dos espelhos na ficção é bastante variada. Enquanto alguns deles são apenas para compor o cenário e para que as personagens admirem a sua própria beleza, outros são mágicos, como é o caso do “espelho, espelho meu” da Madrasta Má da Branca de Neve que dá respostas e mostra soluções, do espelho de Ojesed de Harry Potter que exibe o seu desejo mais profundo e do espelho que transporta Alice para o Mundo dos Espelhos. No entanto, é nos filmes de terror que os espelhos ganham aplicabilidades mais peculiares, como proteção contra seres maléficos (como a Medusa na Mitologia Grega), identificação de vampiros (já que sua imagem não reflete), visões de seres sobrenaturais e criaturas do Além, abdução e aprisionamento de almas e, claro, muitos sustos para o público. A lista de obras que se aproveitaram deste curioso objeto é longa, especialmente em Hollywood. A título de exemplo no cinema, onde os espelhos são um importante elemento da narrativa, temos "Espelhos do Medo" (remake do sul-coreano "Geoul sokeuro"), “A Chave Mestra”, “Poltergeist”, “O Chamado” (com sua horripilante Samara Morgan), “O Iluminado” e “Candyman”.


Em “O Espelho”, novo filme de Mike Flanagan, o chamado Espelho Lassel não é só importante como é o grande astro da película. A trama gira em torno dos irmãos Kaylie (Karen Gillan, de “Guardiões da Galáxia” e da série “Doctor Who”) e Tim (Brenton Thwaites, de "A Lagoa Azul - O Despertar" e do recente "Malévola"), que, traumatizados com a inexplicada morte dos pais e separados após o evento, prometeram descobrir a causa quando se tornassem adultos. Kaylie tem certeza de que o espelho é o culpado por tudo o que aconteceu e está mais do que preparada para enfrentá-lo, mas Tim sente-se vulnerável após deixar o hospital psiquiátrico onde permaneceu internado em seus últimos anos. Ao passo que ele tentava esquecer e se livrar de seu trauma, sua irmã nutria uma obsessão pelo embate com o espelho.


Kaylie montou um esquema tecnológico dentro da casa em que moraram a fim de captar as manifestações paranormais do espelho e destruir o mal que há dentro dele. Já Tim está incrédulo quanto ao poder do espelho e acha que há explicação para tudo o que ocorreu naquela casa, até que começam a surgir provas que o fazem mudar de ideia e recordar das últimas estranhas semanas com seus pais e da fatídica noite de suas mortes. O que era para ser um acerto de contas acabou se transformando em mais uma noite de pesadelo para os dois irmãos. O espelho reflete os seus medos e manipula suas visões. Nunca se sabe se o que está acontecendo é real ou não, e em que espaço de tempo está acontecendo. Não poderia haver título mais adequado que o original “Oculus”, que é a origem latina da palavra “óculos” e cujo significado remete a “olho”, pois o espelho em questão funciona como um óculos para a realidade, deixando nítido e embaçando o que lhe convém, e como um olho, uma porta para a ilusão e para as almas assombradas.


Embora seja possível deduzir o rumo que a história vai tomar a partir do momento em que Kaylie e Tim entram na casa, Flanagan foge do comum com uma excelente montagem que mescla flashbacks de quando eles eram crianças e as situações atuais, criando uma conexão direta entre ambos numa interessante composição de presente, passado e ilusão. Destaque para as atuações de Katee Sackhoff (“Evocando Espíritos 2”) e Rory Cochrane (“Inimigos Públicos” e “Argo”), que interpretam os pais, e para Annalise Basso (“Um Faz De Conta Que Acontece”) e Garrett Ryan (“Confiar” e “Sobrenatural: Capítulo 2”), que vivem Kaylie e Tim quando pequenos.


É perceptível a evolução de “Absentia” (2011), seu primeiro longa, para “O Espelho”, desde o roteiro até a fotografia, e através dele já podemos perceber o estilo e as intenções de Flanagan, assim como semelhanças entre ambos, principalmente a investigação histórica e científica feita pelas personagens principais. Em seu primeiro trabalho – o curta “Oculus: Chapter 3 - The Man with the Plan” (2006) – encontra-se a inspiração e o rascunho para seu atual filme, que foi exibido na sessão Midnight Madness do Festival de Toronto em 2013 e recebeu o prêmio de segundo melhor filme de acordo com o voto do público. Não esperem de “O Espelho” uma máquina de sustos, mas sim alguns instantes de agonia (em especial, em duas cenas), porque mais do que um filme de terror, é um suspense psicológico detalhista, e é isso que o torna superior a tantas produções atuais do gênero.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Espelho (Oculus)

EUA - 2014. 104 minutos.

Direção: Mike Flanagan

Com: Karen Gillan, Brenton Thwaites, Annalise Basso, Garrett Ryan, Katee Sackhoff e Rory Cochrane.


Nota: 4

Um comentário:

Anna Flávia Vieira disse...

E quando nos filmes de terror a pessoa ta lavando o rosto e quando olha pro espelho "bam" meu coração foi cuspido pela boca KKKKKKKKK
Ok, falando do filme agora, parece ser muito bom pela sua avaliação. Mas sei lá, acho que se eu assistisse ia ficar bem "bléh" ou não... sei lá. Mas que eu fiquei curiosa, ah, isso fiquei!

Hey, sabia que eu voltei com o meu blog? Que tal passar lá pra dar uma ajudinha? Desde já agradeço ;)
www.a-procura-do-horizonte.blogspot.com

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