terça-feira, 19 de agosto de 2014

Amar, Beber e Cantar

Última obra do diretor francês Alain Resnais (que faleceu este ano), vencedora do prêmio FIPRESCI por unanimidade da Federação Internacional de Críticos de Cinema e do Urso de Prata Alfred Bauer no Festival de Berlim 2014, “Amar, Beber e Cantar” é uma homenagem à vida, à arte e à morte. Baseado na peça “Life of Riley”, de Alan Ayckbourn (também autor da peça “Medos Privados em Lugares Públicos”, outro longa de Resnais), o filme acompanha a vida de seis pessoas que ficam abaladas com a notícia trágica de que seu amigo em comum, George Riley, tem poucos meses de vida, enquanto ensaiam uma peça de teatro amador.


Para tornar tudo mais interessante, Resnais não mostra em momento algum o seu personagem principal para o espectador, mantendo constante mistério acerca do mesmo. George, apesar de permanecer oculto durante toda a película, é a personagem central que direciona toda a trama e rege a vida de seus amigos de longa data. Ele não aparece, porém faz surgir questões conjugais antes suprimidas pelos três casais e cria situações que envolvem desejo, desconfiança e adultério.


Com uma típica montagem de cenários teatrais, as personagens atravessam as cortinas sem cortes e se apresentam ora como se estivessem no teatro, ora como se estivessem no cinema. A mescla entre as duas formas artísticas interfere diretamente no ritmo do script, com oscilação do timing de ambas, e pode confundir e cansar o espectador desavisado. Entretanto, o contexto metalinguístico em que a trama se insere, com representações teatrais, reforça a metáfora da superficialidade humana no que tange à vida adornada de aparências e encenações. Tem-se a alternância lírica entre o real e o ilusório, o drama e a comédia.


Ao contrário do fraco “Comer, Rezar, Amar”, de Ryan Murphy, “Amar, Beber e Cantar” nos desafia a refletir sobre a morte, a relevância da arte sobre a saúde mental e o que realmente importa na vida. Do mesmo modo que George com seus amigos inquietos, Resnais procura fazer com que nossos sentimentos latentes aflorem para que os libertemos e nos tornemos mais leves e menos ansiosos com relação à vida. Não à toa, a escolha do título original “Aimer, Boire et Chanter” vem da valsa de Richard Strauss, interpretada pelo tenor Georges Thill, uma verdadeira ode à existência e à felicidade – justa homenagem.

Em “Amar, Beber e Cantar”, as personagens amam, as personagens bebem (muito), mas é George, que, mesmo sem ser visto e próximo de proferir seu derradeiro suspiro, canta em tom de celebração e jovialidade seus últimos meses de vida. Um belo e otimista ponto final de Resnais.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Amar, Beber e Cantar (Aimer, Boire et Chanter)

França - 2014. 108 minutos.

Direção: Alain Resnais

Com: Sandrine Kiberlain, Hippolyte Girardot, Sabine Azéma, Caroline Sihol, Michel Vuillermoz e André Dussollier.


Nota: 4

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...