segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Doador de Memórias

Obras literárias distópicas estão no auge do sucesso entre os adolescentes e os chamados young adults, e suas adaptações para o cinema não ficam atrás. Filmes destinados aos fãs do gênero lotam cada vez mais as grandes salas. Seus atuais e maiores representantes, “Jogos Vorazes” e “Divergente”, que o digam. O que pouca gente sabe é que “O Doador de Memórias”, best-seller da autora Lois Lowry ganhador do Newbery Medals de 1994 e primeiro de uma série de quatro livros, foi uma das pioneiras distopias adolescentes, em 1993, a surgirem muito antes da moda. Pelo fato de ter permanecido pouco conhecido até então, sua adaptação em longa-metragem, com Vadim Perelman no roteiro (roteirista e diretor de "Casa de Areia e Névoa") e Phillip Noyce como diretor (“O Colecionador de Ossos” e “Salt”), pode soar como mais do mesmo ao público já acostumado com produções de mesma natureza, quando, na verdade, deveria ser o oposto.


O cenário futurista de “The Giver” (no original) que inicialmente parece utópico, onde todos os felizes moradores vivem em plena harmonia na comunidade ideal, logo dá lugar a um panorama distópico em que os habitantes são marionetes “robotizadas” e oprimidas por seus governantes, que apagaram suas memórias e as deixaram a cargo de apenas uma pessoa – o Receptor. Jonas (Brenton Twaites) é o escolhido da vez e precisa passar por um penoso treinamento com o Doador (Jeff Bridges) antes de ocupar definitivamente o cargo. O que Jonas não esperava é que entender o passado e passar a ter emoções antes desconhecidas fosse lhe trazer tanto sofrimento, não só por não poder compartilhar com mais ninguém seus aprendizados, como também por serem tão pesados. Numa escolha bastante acertada, o espectador enxerga com os olhos do protagonista durante boa parte da película, podendo observar e sentir a transição do preto e branco para o mundo real feito de cores, do cruzamento da fronteira da ignorância para a clara e completa consciência.


Enquanto o longa possui uma premissa relevante e repleta de camadas políticas, o desenvolvimento de sua trama não alcança o mesmo feito. O enredo carece de aprofundamento e a resolução se dá de maneira muito rápida – problemas que poderiam ser resolvidos com mais alguns minutos de fita. O desfecho, apesar de clichê e um pouco piegas, transmite uma mensagem positiva de esperança e de luta por ideias, do jeito que o público gosta. Qualquer semelhança com “Jogos Vorazes”, “Divergente”, “Harry Potter”, e até “A Viagem” e “Mulheres Perfeitas” não é mera coincidência. Com destaque para a atuação dos veteranos Meryl Streep e Jeff Bridges, que acabam ofuscando o casal novato Brenton Twaites e Odeya Rush, além da cantora Taylor Swift numa participação descartável, “O Doador de Memórias” é um filme envolvente que chama atenção por sua proposta, mas que ainda assim tem suas falhas e poderia ser muito mais.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


O Doador de Memórias (The Giver)

EUA - 2014. 97 minutos.

Direção: Phillip Noyce

Com: Brenton Twaites, Jeff Bridges, Meryl Streep, Alexander Skarsgård, Katie Holmes, Odeya Rush e Cameron Monaghan.


Nota: 3

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